Até aonde você vai para se encontrar?

Vou repetir a pergunta: até aonde você vai para se encontrar? Mas se encontrar mesmo – de verdade – na essência? Conhecer seus limites, entender seus desejos e frustrações…

Acredito que eu estava anestesiada pela rotina. Você sabe, essa sequência de acordar, cuidar da casa, do filho, do trabalho, se divertir (quando dá!), dormir e acordar no dia seguinte para fazer tudo – quase – igual.

Os projetos estava indo para a gaveta. No início, eles se debatiam e se rebelavam, mas com o passar do tempo nem isso faziam. Era só aquele olhar de soslaio e tchum, mergulhavam de cabeça na gaveta.

Eu não estava feliz. Aliás, não estava feliz há anos. Foi aí que me descobri uma ótima atriz. Sim! Porque eu até me enganei direitinho por vários anos (vou ser mais precisa: foram uns 3 ou 4). Tá bom, não estava sempre infeliz. Até chegar 2014 e cair a ficha: eu estava com depressão. E quando a ficha caiu, o seu peso me levou pro fundo do poço. Hoje, vejo que a tal mola no fundo do poço assume várias formas – no meu caso foi trocar o tratamento tradicional da dupla psiquiatra+psicólogo e apostar em uma neurologista, a Dra. Maria Elisa, com apoio da psicóloga Ananda Salerno. Duas mulheres fundamentais na minha recuperação – serei sempre grata pelo suporte!

Foi eu sair de uma crise para cair em outra! Se, por um lado, a crise político-econômica está reduzindo minha atuação, está também ampliando meus horizontes. Mas o que isso tem a ver com se conhecer de verdade?

Acontece, meu caro, que se a doença me ensinou a buscar as respostas para os meus problemas em mim mesma, esta crise político-econômica reforça tal aprendizado. Foi preciso mergulhar em mim, conhecer meus oceanos e suas correntes, mapear sua vastidão, catalogar a vida que existe nos arrecifes, me descobrir afinal.

caravela
foto: unsplash

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“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” – Carl Jung

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Se eu continuar na metáfora, posso dizer que cem tanques de oxigênio não foram (ou são!) suficientes! Por muitas vezes me senti perdida, desorientada. E cada vez mais fascinada. Só agora sei que essa sensação de desconforto é peculiar do crescimento (seja ele físico, espiritual, intelectual..).

No crescimento do corpo do animal (a lagosta), a carapaça deixa de lhe servir (devido á rigidez do exoesqueleto) e começando a ficar “apertada”, o animal liberta-se da carapaça num curto espaço de tempo, sintetizando em seguida um novo exoesqueleto, o que equivale a dizer que durante esse período o corpo fica “mole” e desprotegido, ficando vulneráveis aos inimigos e predadores. – Por Rui Motta Freitas (6/99) Cadeira de Fisiologia Aquática.

Interpretei errado os sinais da vida e acreditei que precisava deixar para trás meu lado vulnerável, sendo só forte. É claro que deu um bug no sistema! A inteireza do ser é sua maior expressão, um tesouro de valor inestimável!

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Odes de Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933
Fernando Pessoa

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Eu não me lembro quando escrevi a frase: “posso ser quem eu quiser, e posso mudar de ideia”. Hoje, ela faz ainda mais sentido.

Organizando o armário – 1ª fase

Eram 50 cabides, alguns sustentavam até duas peças, mais 3 gavetas e uma prateleira. Tinha blusa pendurada que eu nunca usei. Saias, camisetas, vestidos de todas as cores e modelos, de todo tipo de tecido. Alguns recém comprados, outros… com 20, 25 anos de história – estes há tempos deixaram de ser roupa e ganharam o status de peça de museu!

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Armario da bia antes do projeto

 

.Para começar o projeto, esse experimento maluco, tinha que arrumar o armário. E lá fui eu fazer esse trabalho glamuroso #SQN. Fiz algumas fotos para documentar o processo, é claro! E vários snaps (segue lá: biattrix). Gastei toda a manhã, mas organizei tudo. Pilhas de roupas na cama, aproveitei para separar para doação o que não usaria mais.

roupas para organizar guardar e doar
Roupas para guardar na mala e para doar.

 

roupas que serao guardadas por 6 meses
A mala! Aí não tem só roupa: tem história! Como é difícil me desapegar!

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E aí me dei conta de que não separei, no projeto, roupas para ficar em casa!

Ihhh, já furei tudo, né?
(Que nada, não tô me levando tão a sério assim!)

Entonces, o armário agora tem 13 peças para o projeto, sendo:

(Gente, essa rouparia toda é para reunião com clientes, levar e buscar o João na escola, café com as amigas, aulas, workshops, palestras (as minhas e as que assisto!), supermercado, cabeleireiro, médico, dentista, cinema, barzinho, festinha, reuniãozinha, balada… qualquer coisa que me tire de casa!)

  • 5 camisetas pretas idênticas.
  • 2 calças pretas iguais
  • 1 blue jeans
  • 1 saia lápis preta
  • 2 saias de malha listradas (amo listras!)
  • 1 bermuda blue jeans
  • 1 vestido de festa preto
armario da bia durante o projeto
As 13 peças básicas, pretas, simples.

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Para vestir somente em casa, separei roupinhas confortáveis e seguindo, mais ou menos, a história do projeto: quase tudo preto! Mas tem duas peças estampadas: as mais sóbrias. (acreditem, sou capaz de misturar estampas nada a ver e, na maioria das vezes, sou muito, muito colorida!).

  • 1 vestido preto
  • 4 blusas (preta/off-white)
  • 1 bermuda de malha
  • 3 leggings (preto/ poá/ liberty)
  • 3 casacos moletom (aqui em casa é gelado no inverno, mesmo que na rua esteja um clima ameno)

A primeira coisa que pensei foi: putz! estou mudando tudo, já que agora tenho 25 peças no armário!
Relaxa, mesmo assim, mudei muito meu padrão – tá valendo!

Eu disse que os acessórios estava liberados, né? Mas aí eu me dou conta de que tenho MUITOS paninhos (leia-se: echarpes, lenços, pashiminas). O que fazer? Ao longo do projeto, vou reduzir isso também!

Quanto aos sapatos… tô me percebendo uma acumuladora!!! Ou tenho síndrome de centopeia! Mas vou deixar o inventário para depois. Hoje é aniversário do João (meu filhote faz 10 anos!) e preciso me arrumar para o jantar. Com que roupa eu vou, hein?

 

 

Que ideia maluca!

A ideia veio no banho. E se? Como vou me sentir? Será que isso pode me mudar?

Não quis procurar projetos parecidos para não me contaminar. Não quero saber o que outras pessoas viveram ao mergulharem de cabeça numa ideia tão maluca quanto a minha.

Afinal, qual é a ideia, Bia?! 

eu mais 13 pecasA ideia maluca que tive é, durante 6 meses, usar apenas 13 peças de roupa. Mas não é um armário cápsula, com peças curinga, clássicas, ou tendências… minha ideia está mais para um uniforme: cinco camisetas iguais, duas calças idênticas, um jeans, três saias, uma bermuda e um vestido de festa. Tudo (mentira! Quase tudo…) preto. Basicão mesmo.

Vou esvaziar meu armário e guardar todas as roupas em malas, longe das vistas (assim deve ser mais fácil, né? Depois penso o que farei com elas…). Ainda estou pensando se limito os sapatos… Por enquanto, não consigo nem pensar em reduzir os acessórios! Sou louca por eles, amo todos que tenho e penso que nunca são demais. Nesse item, incluo meus “paninhos”: pashiminas, lenços, echarpes… (é muito amor, gente!)

Então, tá: é isso. Começo oficialmente amanhã, de 15 de março e vou até 15 de setembro, a data que marquei para finalizar o experimento. Ou não, vai saber!

Você tem medo de quê?

Ela a olhou bem fundo dos olhos. Aquele instante pareceu uma eternidade. Rasgando o silêncio, a pergunta a trouxe de volta do transe: qual o seu medo? Silêncio. Olhos nos olhos.

– me responde: qual o seu medo?

Agora, ela desviou o olhar. Não conseguiria sustentá-lo por mais tempo. Talvez, neles a outra visse a resposta. Ou a vergonha fosse maior.

– Vergonha? – ela pareceu ler seus pensamentos: – vergonha de quê?

Não sabia dizer. A mente estava embaralhada, os olhos, turvos, os ouvidos, zunindo. Já não ouvia mais nada. O tempo parou. A outra continuava matracando qualquer coisa.

– Medo de quê? Vergonha de quê? O que está acontecendo?

Ela cambaleou. As perguntas ecoavam pela cabeça, que agora doía mais que de costume.

– Medo? Qual? Vergonha? Por quê?

Deu um passo à frente, mas esbarrou no espelho que lhe encarava de volta.

Photo credit: ethermoon via VisualHunt.com / CC BY-ND
Photo credit: ethermoon via VisualHunt.com / CC BY-ND

Dá série: Telemarketing – 01

– Olá, posso falar com a Regina?
– Você ligou errado, não tem ninguém com esse nome aqui.
– Posso, então, falar com a responsável pela casa?
– Pois não, sou eu a irresponsável.
– mas, a responsável não está?
– nunca esteve, senhor… nunca esteve.

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Foto: Visual hunt

Certezas

Eu-tenho-certezas-poof

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Eu tenho pequenas certezas.

Sei que elas, as certezas, são ninfas voláteis. Basta um segundo e… poof!, desaparecem no ar. Mas gosto delas mesmo assim. Aliás, gosto delas exatamente por isso, por serem tão instáveis. É que essa caracteristica tão peculiar exige minha constante observação.

Poof, lá se foi uma delas.

Tudo bem, eu construo outras (Poof, poof, poof!) que se desfarão no ar, igualzinho as todas as outras. E assim, nesse movimento intelectual meio esquisito, eu me reinvento a todo instante.