Você tem medo de quê?

Ela a olhou bem fundo dos olhos. Aquele instante pareceu uma eternidade. Rasgando o silêncio, a pergunta a trouxe de volta do transe: qual o seu medo? Silêncio. Olhos nos olhos.

– me responde: qual o seu medo?

Agora, ela desviou o olhar. Não conseguiria sustentá-lo por mais tempo. Talvez, neles a outra visse a resposta. Ou a vergonha fosse maior.

– Vergonha? – ela pareceu ler seus pensamentos: – vergonha de quê?

Não sabia dizer. A mente estava embaralhada, os olhos, turvos, os ouvidos, zunindo. Já não ouvia mais nada. O tempo parou. A outra continuava matracando qualquer coisa.

– Medo de quê? Vergonha de quê? O que está acontecendo?

Ela cambaleou. As perguntas ecoavam pela cabeça, que agora doía mais que de costume.

– Medo? Qual? Vergonha? Por quê?

Deu um passo à frente, mas esbarrou no espelho que lhe encarava de volta.

Photo credit: ethermoon via VisualHunt.com / CC BY-ND
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O que faz cada um ser o que é?

Definitivamente, aquele tombo que levei aos 9 anos de idade influenciou sobremaneira o que sou hoje. A cicatriz está aqui, estampada no rosto, logo abaixo do lábio inferior, pra quem quiser ver. Rosa pálida. Discretíssima, mas presente. Mal sinto seu relevo sob os dedos…

Foi o medo que me fez cair do banco alto da mesa da cozinha, perto do fogão a lenha. Medo suarento, exagerado, quente, espalhafatoso. Naquela época, eu tinha medo de bichos. Qualquer um. Até o mais fofinho filhote me fazia tremer. E a casa da tia Alice tinha um sortimento incrível de bichos.

A escada do jardim da frente descia até a areia branca e fina da praia quase particular. O mar de Angra dos Reis, esmeralda e morno, era a única coisa que eu gostava dali. Cachorros, gatos, galinhas, porcos, marrecos, periquitos e papagaios viviam livres pelo quintal, correndo uns atrás dos outros, fazendo da cozinha aberta nos fundos da casa o ponto de encontro mais barulhento e animado que você possa imaginar – para o meu desespero.

Tia Alice era casada com o tio Abílio. Eles tiveram uma penca de filhos. Jurema, Jucilene, Jandira, Julio, Gilberto. Todos com nomes iniciados pela letra J – a preferida do tio Abílio. [Vai tentar explicar pro tio Abílio que Gilberto começa com G…]. É Juberto. Juberto com jota, sim senhor, dizia ele, brabo, cheio de certeza. Quando finalmente entendeu, nasceram Geraldo e Eduardo.

Viajávamos para Angra todas as sextas-feiras pela manhã. Às vezes, ficávamos a semana inteira. Meu pai tinha um escritório por lá, tentativa de juntar o útil ao agradável. No começo, era na casa da tia Alice que nos hospedávamos. Casa simples, sem luz elétrica, água quente ou outros luxos. A vida era ao ar livre. E cheia de bichos.

Aos 9 anos de idade, tudo o que não fosse gente, vegetal ou mineral era bicho pra mim. Vespa? Bicho. Mosquito, marimbondo, mosca? Bichos. Cachorro, gato, galinha? Bicho, bicho, bicho. Deu para ter uma idéia do meu desespero, não? Pois então. Durante o dia eu fugia dos animaizinhos permanecendo o maior tempo possível dentro d’água. Minha mãe só conseguia me tirar do mar quando gritava que a comida estava no prato. Hora nervosa, digo, porque todos os bichos adoravam ficar rondando a mesa da cozinha, a esperar um naco qualquer atirado dos pratos dos implicantes filhos da tia Alice.

Como eu me contorcia, a subir as pernas, todas as vezes que algum quatro-patas passava pelo meu banco – o mais alto da mesa! E assim, rebolativa, eu almoçava, muitas vezes às lágrimas, de tanto medo daquelas criaturas. Foi por isso mesmo que caí.

Levei três pontos. E decidi acabar de uma vez por todas com aquele medo irracional. Acho que desde aquele ano sigo decidida – quando digo chega, não há santo que me faça mudar de idéia.