A escada

Essa noite, sonhei que subia uma escada muito alta, levemente bamba, daquelas simples, de metal, que encostamos na parede, sabe?

Só que no meio da subida, ela passou a ser daquelas que têm os degraus de tubos de metal fincados na parede, sabe qual?!

Sentia meus pés inseguros a procurar apoio, mas eu não olhava para baixo, com medo da altura. No alto, uma amigo a me estender a mão, a incentivar a subida.

Em um dos piores momentos, vejo passar por mim um elevador de cargas, simples, sem portas, e penso: “porra, se eu soubesse, esperaria o elevador!”

Essa, senhores e senhoras, é a metáfora da minha vida.

E eu continuo subindo a tal escada.

p.s.: no sonho, eu chegava lá em cima (onde, não sei!).

Uma bica e muitas histórias

No começo, um café

A primeira coisa que fiz ao chegar em Lisboa foi me sentar na esplanada do Café A Brasileira, na Baixa Chiado, pedir uma bica*, inspirar fundo e expirar, lentamente, toda a gratidão por estar vivendo um sonho.

(Deixa eu recapitular umas coisas, rapidinho) – Oi, eu sou a Bia e vim morar em Lisboa com meu filho de 11 anos para estudar, conhecer a Europa e viver outros ares..

É verdade que momentos antes de achar aquela mesa, assim que subi as escadas do Metro na Baixa-Chiado, deixei uma lágrima rolar – eu estava em Lisboa, afinal! É como se ali, naquele cenário, começasse um novo capítulo da minha história. Ao lado de Fernando Pessoa, registrei o momento.

O café é uma bebida social, que pontua diversos acontecimentos cotidianos, não é mesmo?

O café é o começo do dia: há quem não acorde sem antes tomar uma boa xícara fumegante. Ele, o café, finaliza refeições, está presente em reuniões de negócios, nos encontros casuais de amigos, ajuda a enfrentar noite a dentro.

Com sua rica história, ele será o meu fio condutor. Deixo aqui o convite para descobrirmos Lisboa juntos, visitando seus cafés, ouvindo causos, conhecendo sua gente.

Será um prazer tê-lo comigo.

*A história da bica do Café A Brasileira

O Café A Brasileira foi inaugurado no Chiado, em Lisboa, no ano de 1905, vendendo o “genuíno café do Brasil”. O Sr.Adriano Telles, que vivera no país, importava os grãos de produtores locais com facilidade. O sucesso fez a casa crescer, e o Sr.Telles ampliou seu estabelecimento com a Sala de Café, espaço onde se reunia a elite de Lisboa: advogados, médicos, jornalistas, escritores (Fernando Pessoa!), pensadores, revolucionários e estudantes. Todos ali se reuniam para beber café e conversar.

Na época, não havia máquinas de espresso – o café era passado por sacos e vertidos por uma torneirinha – a bica! – para as garrafas, que o serviam à mesa. Neste processo, o café esfriava e perdia um pouco do seu aroma. Diz a lenda que alguns clientes reclamaram da qualidade da bebida e que o Sr.Telles teve que intervir, pedindo que um empregado enchesse a xícara diretamente da bica. Com sabor e aroma mais intensos, o café da bica logo passou a ser o preferido de todos, nascendo, assim, o termo “bica”.

Prima Berta

Naquela noite, o jantar seria na casa da prima solteirona e endinheirada, dona de quase metade da cidade. Berta se achava acima do bem e do mal: coisa que herdara de seu pai, junto com todos os apartamentos, lojas e galpões espalhados pelo centro da capital.

Ela não não tinha tempo para romances, repetia exaustivamente, como quem quer acreditar no que diz. Mas, desde garoto, eu atribuía sua solteirice aquele penteado de cacatua, e ria sozinho ao imaginar um primeiro encontro.

– Quase sete meia! A prima não tolera atrasos! – esbravejou mamãe, ainda com os olhos presos no velho relógio de pulso, zanzando pela casa a procurar a piteira de prata e ouro: “presente da prima”, justificava.

Eu, sentado na sala a esperar toda aquela movimentação pra sairmos, deixei que as recordações corressem soltas. Já não aparecia por ali há uns bons 15 anos. Como o tempo passa rápido, e não nos damos conta, divaguei. Se bem me lembro, a última vez foi no Natal de 2002, um pouco antes da minha viagem. Ganhei de presente de uma tia-avó um combinado de gola rolê e cachecol para me aquecer no inverno que enfrentaria em breve. Na época, eu os odiei! Agora, me recordo com carinho daquelas mal tricotadas peças. Por que ficamos tão nostálgicos na casa dos nossos pais? Até as coisas ruins me parecem divertidas, como na vez que quase perdi o dedão do pé, ao dar uma topada na borda da piscina. Ali mesmo, onde escorreguei no trampolim e dei a maior barrigada já registrada na casa dos Guimarães Boaventura. Sorrio ao me lembrar dessas tontices da minha adolescência.

A casa da prima Berta continuava como nas minhas lembranças: grande demais e entulhada de coisas que não conversavam entre si.

Os convidados aguardavam na sala de estar, bebericando e conjecturando o futuro da nação, todos ali se achavam políticos e milagreiros!, quando uma engomada copeira nos chamou para à mesa.

– Hum, lugares marcados! Típico da prima, que adora impressionar por seus requintes europeus, maldisse o mal-humorado marido da minha irmã.

Todos sentados e com os copos servidos, Berta bateu, levemente, com as costas da faca na taça de cristal, a pedir atenção:

– Queridos familiares e amigos, eu os chamei aqui por uma razão…

Antes que pudesse terminar sua frase, os sussurros começaram. A mesa, não muito grande se comparada ao ambiente, acolhia confortavelmente os 18 convidados e sua anfitriã, de repente pareceu pequena e incômoda. O que a prima teria a dizer? Por que juntara a todos nós, assim, num dia qualquer? Seria doença? Ela vai morrer???

Berta interrompeu os pensamentos e seus burburinhos para acabar com as especulações:

– Nosso jantar será o último, nesta casa. A penúria enfim me alcançou. Ao servir este frango assado e caçarola para a sobremesa, comunico a todos: o cascalho acabou!

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Este singelo conto é uma resposta ao desafio feito pela Maria Rachel, através da deliciosa Terapia da Palavra. Espero que gostem.

Imagem destacada: Freepik

Aquele abraço

O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.

Essa frase não é minha (claro!): é do Jota Quest. Mas tenho certeza de que ela já foi dita (ou pensada) centenas de milhares de vezes por muitas pessoas que nem conhecem a música. Porque é a mais pura verdade: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.

Depois de fazer a malas e me mudar para Portugal, meus abraços ficaram mais escassos.
(nos últimos cinco meses…)

  • dos meus pais, que ficaram por aqui de fevereiro até meados de março
  • do meu filhote, que tem um dos mais gostosos ever!
  • de uma amiga portuguesa muito querida, que parece ter um radar especial para abraços necessários

A dose de carinho que recebo diariamente – seja do filhote, da família ou de amigos – me nutre o suficiente e não me sinto carente*, mesmo quando a saudade aperta (e isso acontece muitas vezes!).

Até que… ela** chegou e me deu o abraço mais especial de todos. Um abraço porto-seguro, caloroso, reconfortante e muito demorado! <3 Era como se eu abraçasse, ao mesmo tempo, todos os meus queridos que estão longe (meio SENSE8 isso, né?). No entanto, éramos só nós duas e a nossa amizade.

Aquele abraço demorado…

Estar longe das pessoas que amo (família e amigos, é com vocês que estou falando!) me fez ver o quanto elas são especiais (muito!). É o velho cliché: a gente só dá valor quando perde. Não que eu tenha negligenciado meus familiares e amigos –  acredito que eu tenha, por várias vezes, declarado meu amor por eles, apesar de não ser uma amiga muito presente…

Os abraços de oi-como-vai, até-logo, estou-morrendo-de-saudade, agora, com a distância, me parecem frouxos e escorregadios, automáticos e até rapidinhos demais… como se a certeza de um próximo encontro diluísse a necessidade do aperto, do aconchego.

Esse “pouco-caso” tão comum nos dias corridos, hoje me soa como tolice: eu queria ter feito diferente!

Você pode agir de outra maneira, de modo que isso que digo seja verdade apenas para mim. Mas, talvez e só talvez, você também esteja adiando aquele abraço apertado e beeeeemmmm demorado.

(Quando acabei de escrever esse parágrafo, me lembrei de um vídeo e corri pra achá-lo no YouTube!)

A Erika** é uma amiga de longa data (uns quatro ou cinco anos), mas que só se tornou bem próxima meses antes d’eu viajar. A trabalho, passou uns dias por Lisboa e tivemos a chance de nos encontrarmos por algumas horas. Foi um domingo bem especial! Obrigada, querida! E volte logo!

  • Mentira: tem dias que fico muito, muito carente! Faz parte e tô aprendendo a lidar com isso.

E aí, já deu um abraço demorado hoje?

p.s.: Esse não é um post patrocinado pela Panvel.

 

É, eu mudei – de várias maneiras

Quando contei a algumas pessoas que me mudaria para Portugal em 2017, depois da surpresa, o comentário era unânime: você precisa escrever um blog!

Mas eu já tenho um blog, pensava…

Adiei a decisão de fazer um blog sobre esta mudança e, mesmo agora, quase 3 meses a morar fora, ainda não sei como fazê-lo. Deixo de lado o biattrix.com.br e crio algo novo? Abro uma nova sessão para falar exclusivamente da mudança? Dou dicas d’o que e do como fazer?

Há na blogosfera muitos e muitos sítios assim – dedicados a responder as dúvidas de quem resolve se mudar. Não acho que eu falaria melhor do que eles. Neste caso, vou fazer uma lista daqueles que me ajudaram na hora das minhas pesquisas e me dedicarei a outro aspecto da migração: o estado de espírito. Mas vou falar do que sinto, afinal, não teria como rotular outras experiências. E talvez, ao abordar meus humores, você se identifique…

Antes da mudança

A decisão de me mudar, de mala e cuia, não foi tão difícil ou elaborada… depois de um papo com uma grande amiga que havia passado alguns meses em terras lusitanas, a chama da mudança se acendeu em mim. Praticamente um interruptor on/off, de tão rápido que aconteceu.

A parte mais complicada, que ainda preciso de muita elaboração, meditação e respiração (para não surtar!) foi – ou melhor: é!!! – ficar longe dos meus pais. (Estarei longe e não verei as novas rugas que surgirão…) Mas, como ótimos pais, eles (mais uma vez!) me empurraram do ninho da minha zona de conforto e me deram todo o apoio que eu poderia receber! (Obrigada, pais!).

Deixar os amigos também não foi fácil! Não quis despedidas, e escrevo com lágrimas nos olhos: como eles me fazem falta!!! Mas, na época (parece há tanto tempo!), eu sentia que a distância me aproximaria ainda mais dos verdadeiros. Vai parecer piegas, mas o amor é assim: apenas três meses longe do Brasil, e meu coração transborda por todos eles! Eu estava certa, afinal! (sou intensa, me deixa!)

Viajar leve

Na minha cabeça, a mudança não seria por meses – mas por anos: como decidi estudar, seriam três anos de licenciatura, dois de mestrado, quatro de doutoramento… sim, porque quero ficar cabeçuda! Com isso, o que fazer com todas as minhas coisas?!

Desmontar meu apartamento, construído com amor e cacarecos por longos oito anos, não seria uma tarefa simples. Eu era apegada as MINHAS coisas, a minha casa! Foram muitos papos, alguns aos prantos, com dona Heloísa, minha musa-mor da Simplicidade. (Gratidão, gata, por aguentar meus surtos).

Alugar meu apartamento meses antes do que eu planejava me ajudou muito a me desapegar – afinal, eu não tinha muito tempo para pensar no assunto. Vendi, dei e doei muita coisa – praticamente 75% do que eu tinha. Tudo aquilo que me restou encheu umas seis caixas médias (80x50X30cm) que estão guardadas com carinho até que eu resolva o que fazer (trazer, doar ou guardar?).

É claro que não foi fácil! Mas a pergunta que ficou é: pra que eu tinha tudo aquilo?

Viajar leve, mas nem tanto… Toda a minha tralha!

Cheguei, e agora?

Assim que cheguei, respirei. Estou em Portugal! Era a hora de acertar os pormenores da minha estadia. Só estando aqui é que pude dimensionar a minha mudança.

O primeiro apartamento que aluguei foi um charmoso rés de chão em Quinta do Anjo, em Palmela, Setúbal. Totalmente mobiliado e equipado, eu não precisei me preocupar com nada, a não ser chegar e me sentir em casa. Uma quinta charmosa e distante de tudo, onde o transporte público – os autocarros – só passava de hora em hora.

Minha primeira vizinhança…

Outra providência importantíssima foi consultar a Casa do Brasil, uma instituição que acolhe e orienta os migrantes brasileiros. Lá, fui muito bem recebida e a recomendo para todos que queiram vir passar uns tempos em Portugal. Nós entramos em Portugal com isenção de visto e assim ficamos por até três meses. Depois disso, é preciso solicitar o visto por até mais dois períodos de três meses cada, totalizando, então, nove meses como turistas. Há outros tipos de vistos e você pode se informar melhor no Consulado Português do Rio de Janeiro (ou aqui, onde você acha todos os Consulados de Portugal no Brasil).

Entendendo melhor a dinâmica da cidade, descobri logo que precisaria sair de Lisboa para conseguir me manter com o meu budget. Os aluguéis estão caríssimos em Lisboa e achar um lugar bacana não é tarefa fácil. Como eu tinha pressa (meus pais vieram me ajudar com a burocracia e iriam embora em um mês e meio), precisava achar onde morar, optei por atravessar o Tejo rumo a Seixal (dica de um taxista que nos atendeu em Quinta do Anjo).

Na margem sul do Tejo, Seixal é um subúrbio tranquilo e charmoso (eu, pelo menos, me encantei!). Aluguei um T2 confortável, no quarto andar de um prédio sem elevador – o que é bem comum por aqui. A localização não poderia ser melhor: tudo ao meu alcance, da farmácia ao mercado, dos autocarros ao barco. A escola do meu filho também é relativamente perto – uma caminhada leve de 20 minutos.

Agora, é explorar os arredores e dar rotina à vida.

 

 

 

 

Já estou de saco cheio!

Quando pensei em vestir um “uniforme“, a primeira pessoa com quem conversei foi a consultora de estilo Carla San. É claro que ela pediu para pensar um pouco, porque ninguém em sã consciência, ainda mais trabalhando com estilo, aceitaria vestir um uniforme por seis longos meses, não sem pensar muito a respeito.

Armário reduzido
13 peças básicas, alguns acessórios e umas quatro ou cinco peças para ficar em casa. Armário reduzido até setembro.

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Só que o meu momento era aquele. Mudar radicalmente era imperativo. Eu precisava fazer algo muito diferente do meu normal. E o meu normal até então era o animal print, as cores misturadas em estampas gigantes, os étnicos, as listras, os poás e os florais.

Vestir só preto tem me deixado entediada. Talvez, com o friozinho chegando, as cores dos lenços me animem um pouco. Talvez… Pensei que faria mais selfies, com os looks do dia. Todavia, a motivação para tal nem deu um segundo suspiro: morreu em frente ao espelho, ao constatar a monotonia do reflexo.

 

Mas por que raios eu decidi usar um uniforme?

Não sei. Quer dizer, eu imaginava que seria muito mais fácil me arrumar, que o armário quase vazio (eram mais de 60 cabides!) me traria uma certa paz. E trouxe. Só que ela não é a minha praia! Eu gosto do caos (não me lembrava disso!).

Roupa é statement.

Roupa é a afirmação da sua personalidade, uma declaração de quem é você na fila do pão. Mesmo que você opte por não declarar nada. Não tem como fugir.

Ao me privar das minhas afirmações inconscientes (nunca pensei tão abertamente em quais imagens gostaria de passar com o meu vestir),  eu tenho pensando mais em quem eu sou. Também tenho me arrumado em 5 minutos, já que não tenho como escolher algo diferente do combo blusa preta + calça jeans (ou calça preta). Prestar mais atenção às escolhas das outras pessoas tem sido meu passatempo favorito. E quase não vejo vitrine, coisa que fazia com os olhos lânguidos de desejo – perdi o tesão. Vez ou outra me pego divagando sobre que guarda-roupa terei ao terminar o projeto… calça de alfaiataria, corte reto, com t-shirt branca e algumas saias midi estampadas? Algo mais clássico-retrô com algumas peças coringa, ou assumir de vez meu lado over a la Iris Apfel?

É engraçado você se privar de algo por escolha própria – não é um fardo, é uma experiência interessante de auto-conhecimento. Algo como um detox, uma purificação quase religiosa. Eu, aquela extravagante, agora visto algo comedido. Posso até reclamar de tédio, mas me sinto leve.