Palestras de marketing: os profissionais, os gurus e os fakes

Ontem, dia 3 de setembro de 2022, um evento-show sobre marcas e alta performance aconteceu em São Paulo, com ingressos que passavam dos mil reais (sem contar viagem, hotel e alimentação), sua a versão online custava 1/3 disso.

Indicado por uma amiga, fui bisbilhotar a palestrante. Logo vi que pessoas que tenho em alta conta também a seguiam (erroneamente, entendi isso como um aval à tal mulher), e por isso concordei em participar da versão Zoom. Afinal, estou há cinco anos longe dos bastidores do marketing digital (dei um tempo para estudar antropologia). Nesse período, usei o Insta apenas para exibir minha figura e ganhar biscoito (brinks, ensaiei o Clube dos Contos antes do luto).

Sábado, às 8h, acordei disposta a aprender (adoro isso!). 

Às 9h, já de Zoom ligado, aguardo o início das palestras, com mais umas 300 pessoas. (No presencial, algo entre 800 e 1.000 pessoas).

Música alta, card com contagem regressiva, credenciamento dos participantes pegando fogo. No online, pessoas se dizem emocionadas por aquela oportunidade. Várias dão depoimentos da gigantesca transformação que aquela pessoa tinha proporcionado. São fãs incondicionais. Alerta ligado, pulga pula pra trás da minha orelha.

Vai lá, Bia, deixa de preconceito! A garota (28 aninhos!) deve ter algo bacana para passar. Você não acredita nessas coisas de idade – todos têm algo a ensinar… – meu cérebro conversa com a pulga, na tentativa de desfazer o incômodo que meu corpo sentia. (Sim, sou uma pessoa cinestésica).

O show começa. Emoção. Muita emoção. Lágrimas. (Oi?) A moça, religiosa, fala de superação, fala das dificuldades que enfrentou, dos seus dramas internos, da pandemia, planos e sonhos adiados. Uma palestra motivacional. (Ok. Talvez venha algo daí…).

Primeiro bônus-surpresa sobe ao palco: especialista em gestão do tempo e produtividade (agora vai! Vários insights e confirmações do meu “jeito de pensar” (nem acredito que eu ainda precisava de validação, que merda!)). Daí ele fala de uma galera que eu chamo de guru-de-palco e suspeito que seja adepta da umbigologia da Manu Rangel: o povo da Uhulândia. A tal palestrante é dessas. (Vamos ver se depois disso ela traz algo mais consistente. Até agora, nada.).

O segundo bônus-surpresa entrega um insight muito bom – vou me agarra nisso! (já desenvolvo)- e me relembra da esteira de produtos (boa!).

Enquanto isso, a estrela do dia segue apagadinha pra mim, incandescente para seus fãs. Os depoimentos chorosos se intensificam, gratiluz e lágrimas. Então, o fim se anuncia: carrinho aberto, mentoria para pouquíssimos (só 60, 70 pessoas). O investimento segue a fórmula vigente: isso + isso + isso + isso = de milhões por apenas R$ 3.200. “Isso porque eu sinto que preciso ajudar vocês a chegar ´noutropatamar´como eu cheguei”. No chat do Zoom, vizinhos em polvorosa: “só isso? Está muito barato!”; “o quê? A minha mentoria custa 5 mil, a dela não pode ser só isso! Quanta generosidade!”.

Eu me questiono se é profissional de marketing ou seita. Descarto as duas opções. Sigo a pensar que é alguém que entende bem de pessoas quebradas, e sabe usar a groselha como liga.

Não tenho coragem de fazer algo nesses moldes. Sinto vergonha alheia! E também um pouco de raiva do “mercado” estar tão bagunçado assim… Mas quem sou eu na fila do pão, não é mesmo?

2 respostas para “Palestras de marketing: os profissionais, os gurus e os fakes”

  1. Entendi direito? O evento pago (e nada barato) era pra vender a mentiroso? (tentei escrever mentoria, mas o corretor insistiu na mentira)

    Sabe o que realmente me incomoda?

    Se a gente quiser ministrar um curso muito melhor por um preço justo pouca gente vai se inscrever pq vai achar que é ruim pq é barato.

    Por outro lado não podemos oferecer pelo mesmo valor também porque não vamos dizer que é a solução mágica, não vamos jamais apelar para a formação de uma seita em torno da gente.

    Mas, cara, deve ter um jeito de interromper esse ciclo vicioso. Nunca parei pra pensar em uma estratégia, mas talvez a gente devesse fazer isso, viu? Pelo bem das pessoas 😉

    Só que não ando muito animado a produzir conteúdo… Tenho feito só quando dá síndrome de abstinência 😅

    1. Mentoria/mentira… teu corretor sabe das coisas.

      É exatamente isso – se cobro o justo, acham que não vale e nem me dão uma chance.

      Também não quero ser estrela num palco – não é o tipo de palestra que amo fazer…

      O mercado está uma bosta e as pessoas não se dão conta da sua própria ignorância.

      Só falando palavrão, viu?!

E você, o que pensa sobre isso?! Comente aí, vai...

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