Babel

Abro uma nova folha em branca no notebook
não sem antes preparar meu canto
luz, silêncio, incenso.

O caderno está aqui, ao meu lado, mas parece que não mais sei escrever como antes.
Preciso do teclado, e da sensação táctil de premir cada tecla.
Preciso do ecrã e da sua luz amarelada, para onde olho por longos minutos antes de saber como encadear meu pensamento. E mesmo assim, não o sei.

Ele. O meu pensamento.
Tão confuso e tão errático.

Como traduzir tudo o que sinto e penso em letrinhas nesta tela?
Será que a caneta e o papel tornariam essa tarefa mais simples?

Já fui capaz de brincar com a enxurrada de pensamentos desordenados. Hoje, não tenho certeza, esqueci como se escreve. Talvez porque os 50 me peçam mais consistência. É preciso deixar ir os arroubos juvenis e assumir uma cadência que não está em mim. Porque em mim pouco mudou. Sinto como sempre, apesar da aparência denunciar os anos que passaram. Por dentro, sou a mesma: assustada, sozinha, perdida. 

Mas não é só, nem tudo é pesar. 
Dentro de mim vivem muitas e nem por isso concordamos. 
Entretanto, aprendi a dialogar, a negociar, a conciliar.
Essas tantas, que em mim moram, convivem com suas próprias dores e alegrias. 
Uma verdadeira Babel. E talvez por isso eu me defina como efervescente: vivo em constante ebulição. 

Se de um lado tem dores, os dissabores não vão além. 
Há festa, há calma, há paz. 
Porque em mim nascem flores de todas as cores. 
E com os anos, confirmei que é preciso chover para renascer. 

Todo dia, hora, minuto. 
A cada respiro
pisco e morro; 
pisco e sou.

Photo by Daniil Kuželev on Unsplash

O gosto da nostalgia

Marrom Glacê

Ao dar uma mordida no marrom glacê, fui transportada a um passado tão distante…

Vigário Geral, na casa da minha tia-avó. Uma casa quente e escura, quase sempre fechada por conta dos mosquitos. A copa-cozinha era meu lugar preferido: branca e fresca. Lá fazíamos pastel, que eu tanto amo. Na geladeira, daquelas de porta abaloada e com uma trava, sempre tinha mate (Leão, da infusão de folhas!).

Tia Dília gostava de doces, daqueles industrializados e enlatados em duplas ou trios: goiabada, marmelada e marrom glacê (o meu preferido!).

Olhos azuis lindíssimos, cabelos brancos, a pele levemente morena, ela devia ter sido bonita quando mais jovem. Mas era muito má… elegia a criança mais pequena da família como sua predileta e tratava-a com todos os mimos, até um outro bebê nascer, e ganhar seu coração.

Foto da foto dos irmãos Loureiro: Minha tia-avó Dília, o tio-avô Antônio e minha avó Clotilde Loureiro Quadros (mãe da minha mãe, que adotou o apelido Quadros do marido, Oscar).

Assim perdi meu posto para meu irmão do meio que, por sua vez, o perdeu para o caçula.

Minha mãe também comprava esses doces em lata. Mas preferia as latas de sabores únicos: só goiabada, só marrom glacê…

É… acho que é nostalgia que se chama.

P.s.1: hoje, meu marrom glacê preferido é o espanhol, do El Corte Inglês, feito de castanhas 😉


P.s.2: imagens meramente ilustrativas, via Google e Pinterest, sem fontes reconhecíveis (links quebrados). Caso saibam quem são os donos das imagens, ficarei feliz em dar o devido crédito.

I really need you tonight

Lá vem história… em 1983, Bonnie Tyler lançou uma power ballad que a levou ao topo da Billboard Hot 100. A música fez parte da trilha sonora da novela das seis Pão, Pão, Beijo, Beijo, da Rede Globo, e entrou para o hall das minhas prediletas.

Eu tinha 12 anos, e foi quando dei meu primeiro beijo na boca, na festa de aniversário do menino mais bonito da rua da minha prima, no subúrbio carioca. Estávamos dançando essa música quando rolou o beijo. Depois disso, todas as vezes que o Dudu​ tocava Total Eclipse of the Heart, nas festas do playground do PRDC, eu sentia borboletas no estômago, uma tímida ansiedade difusa: quem vai me chamar para dançar?

Confesso que a sensação de borboletas no estômago, ao ouvir essa música, ainda me rouba o ar. É nostalgia que se diz, não?

Sobre pontes e muros

Por causa de uma notícia compartilhada por uma querida amiga (a Rachel, do Terapia da Palavra), descobri Yo-Yo Ma, que diz viver entre fronteiras – físicas, culturais, musicais, e reforça que devemos construir pontes, não muros.

Yo-Yo Ma toca Bach na fronteira entre Laredo, Texas, e Nuevo Laredo, México, em 13 de abril de 2019

Longe de casa, de tudo o que me é familiar, ainda a construir o meu pedaço, me desconstruo todos os dias na tentativa de fazer pontes, de criar vínculos. Embora, em muitas horas, eu sinta um muro a me fechar.

Cruzar distâncias é cansativo – e nem falo das físicas. Dessas eu tiro o prazer de longas caminhadas. Refiro-me às distâncias entre pessoas…

Sobre a beleza

Eu sempre ouvi a frase “a beleza está nos olhos de quem a vê“, e nunca soube quem a proferiu pela primeira vez. Diz a internet que foi o filósofo e poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio, no século XIX.

Hoje, ao ver algumas fotografias feitas debaixo d’água, e ficar emocionada com tanta poesia, me perguntei se todos veriam ali a beleza que me comovia.

Fotografia de Christy Lee Rogers. Mais em mymodernmet.com/muses-christy-lee-rogers

Aprendemos o belo como quem aprende a falar. Somos ensinados a apreciar isto ou aquilo. O teu gosto pessoal não é assim tão pessoal como gostarias de acreditar. É quando damo-nos conta de tal feito que libertamo-nos para além dos limites que nos são impostos. Livres.

Talvez isso não importe tanto quando falamos de fotografias, quadros ou músicas. Entretanto faz toda a diferença quando falamos de corpos, de pessoas, de humanos. Porque impõe-nos a fronteira entre sermos aceitos ou não. Marca a divisão entre pertence e não-pertence. Secciona o valor intrínseco de cada um de nós. Categoriza. Fere. E mata.

Na Praça, os daqui e os de lá passam

Como as pessoas circulam e ocupam o espaço público?* Para responder tal pergunta, separei um par de horas para observar como a Praça Dom Luis I serve de passagem e paragem para as pessoas que circulam pela cidade. Na última sexta-feira, por volta das 17h (16h52, para ser mais exata), atravessei a avenida 24 de Julho rumo à Praça, vizinha do Mercado da Ribeira, conhecido ponto turístico-gastronômico de Lisboa. Como forasteira, me interesso em observar como os locais e os “de fora” circulam pela cidade. Os olhares são tão distintos que é quase possível afirmar, mesmo sem ouvir quaisquer palavras, se são daqui ou de lá.

 

O tempo nublado não deixa Lisboa menos fervilhante, e apesar do céu branco, a temperatura agradável, por volta dos 21º graus, convida a uma volta. O barulho da cidade se faz presente, como um constante fundo musical, e se mistura ao arrulhar dos pombos, numerosos neste pedaço de chão. Outros pássaros cantam, encobertos e incógnitos pela folhagem das árvores. Crianças brincam no cercado, a nordeste da Praça, mas seus risos e gritinhos ecoam por todos os lados. Dois cães correm pela grama, a ignorar qualquer caminhante. Um burburinho mescla todos os sons que, vez ou outra, são abafados pelas buzinas inquietas no cruzamento das ruas.

Os gramados do Jardim Dom Luis I, com suas flores, árvores e palmeiras, desenham e orientam a circulação das pessoas, mantendo uma área externa para passeio público e seis entradas para o centro da praça, onde está a estátua em homenagem ao Marquês Sá da Bandeira, fidalgo da Casa Real e ministro de Estado, nascido em Santarém em 1795. Há bancos em toda a extensão da praça, quase todos ocupados por uma ou duas pessoas, embora seja difícil observar desconhecidos a dividir o mesmo banco, salvo raras excessões.

Pelo chão, traços de um certo descuido com o descarte correto do lixo: inúmeras beatas, palhinhas, pequenas embalagens plásticas, pedaços de guardanapos de papel e outros detritos menores. Tal sujidade parece ser apenas o acumulo do avançar dia, uma vez que o jardim mostra ter seus mínimos cuidados diários. Em contraste com o aparente desvelo dedicado ao jardim, dois homens dormem no gramado, a leste da praça, enfrente ao Mercado da Ribeira. Suas roupas estão desmazeladas, desgastadas, desbotadas; seus rostos, vincados pelo tempo e, talvez, pelas dificuldades da vida. Suas poses, guardadas em mochilas encardidas, servem de almofadas, a oferecer algum mínimo conforto. Parecem alheios a tudo e a todos, entregues a sonhos, pesadelos ou nem mesmo a isso, quem é que vai saber?

Nos bancos da praça, é possível observar alguns trabalhadores a aproveitar minutos de folga: três ou quatro cozinheiros dos restaurantes do Time Out ou do entorno, um entregador do Glovo! com sua grande caixa amarela, dessas que acoplam na mota. Além de vários turistas que, pelas conversas, têm suas nacionalidades expostas: é possível distinguir, ao acaso, italiano, inglês, alemão. Sotaques diferentes de um mesmo português aparecem e somem, conforme passam grupos falantes vindos da rua de trás a caminho da 24 de Julho. Muitos são os jovens que saem das aulas do Etic, com suas vestimentas tão variadas quanto possível. Desses, todos carregam seus telemóveis na mão, muitos com fones de ouvido, em uso ou em descanso no pescoço. Entretanto, não é a faixa etária mais predominante, embora pareça ser a mais barulhenta. Homens e mulheres de todas as idades caminham na mesma direção: da rua Dom Luis à avenida 24 de Julho, vindos na sua maioria do lado noroeste da praça. Turistas denunciados por suas câmeras em punho, fazem o caminho contrário: saem da avenida em direção ao centro da praça, chamados, talvez, pelo Marquês Sá da Bandeira, ou apenas a procurar algo no Quiosque do Cais.

O Quiosque tem suas mesas quase todas ocupadas por eles, os turistas, a não ser por duas jovens estudantes que usam o espaço para colocarem em dia algum pedaço de matéria, orientadas por um manual escolar – e pelo fragmento de conversa, afirmar que estudam a História de Portugal não seria leviano. Aqui, o barulho da cidade parece ainda mais distante.
I shound’t I wouldn’t, de Jojo Effect, embala as conversas, sem que seu volume atrapalhe qualquer coisa. A fumaça de tabaco é constante, embora, por duas vezes tenha dado espaço para o agradável cheiro da fumaça de um cigarro eletrônico. Poucas pessoas comem, parecem preferir os copos: nas mesas, o Imperial Superbock de 0.40 é o mais pedido, seguido pelo café e uma ou duas taças de vinho tinto. Um único empregado de mesa se desdobra a atender toda a esplanada. Apesar do movimento, ele parece se sair muito bem.

Foi ao pedir um café, que abri espaço para que ele puxasse uma conversa. Meu inegável sotaque carioca o fez se abrir e me contar parte de sua história intrigante, que agora divido com vocês.

Rodrigo tem 28 anos. Largou seu trabalho como piloto comercial de aviões para buscar algum sentido na vida, segundo ele mesmo conta. Há cinco anos viaja pelo mundo. Primeiro, América Latina, carimbando seu passaporte por todos os países. Diz ele que, antes de partir para outro continente, se viu na obrigação moral de conhecer seu próprio e gigantesco país. E assim o fez: visitou 500 municípios brasileiros. Parte dessa aventura está registrada em um blog. Há um ano, chegou à Inglaterra; e há quatro meses está em Lisboa para resolver a documentação de sua cidadania, mas se apaixonou pela cidade e promete ficar por mais tempo.

Uma chuvinha fina começa e reduz significativamente o movimento na Praça. Alguns poucos turistas não se incomodam e continuam em seus copos. O céu escurece pelas nuvens pesadas  do aguaceiro que se anuncia, e pelo avançar das horas: já passa das 18h. É tempo de fechar o cadernos de notas e voltar à casa.

>>> Este texto é um exercício de observação não-participante, de tema livre, proposto em sala de aula e feito no dia 20 de abril de 2018.