Clube dos Contos, edição 3Parágrafos

O Clube dos Contos nasceu da vontade de ajudar as pessoas a colocarem o papel suas ideias de um jeito lúdico, e sem muitas cobranças.

Um exercício de criatividade para resgatar o hábito de escrever!

Com esse post, comecei uma serie especial lá no Instagram (pedacinhos de uma big picture!) criada para falar do Clube, e fiz o convite: vem comigo!

Como foi o caminho até aqui?

Foram duas edições do Clube dos Contos, em junho e julho, antes das férias verão, que renderam boas histórias!

O Clube parou em agosto para aproveitarmos o verão e curtir o “dolce far niente” tão necessário para reabastecer-nos de criatividade.

O ócio é coisa séria!!! Pratica-o de tempos em tempos.

Um momento para ler, ouvir música, caminhar sem destino… nem sempre a pausa tem de ser grande e não precisas esperar pelas férias: incorpora a pausa no teu dia a dia, ou na semana, para que tenhas um tempo só teu.

A big picture criada no meu perfil do Instagram, depois de todos os posts publicados!

Voltamos em novo formato: Clube dos Contos, edição 3Parágrafos.

Escrever pode ser terapêutico: colocas no papel as emoções guardadas no peito, em busca de alívio, reflexão, entendimento… ou pode ser só uma história aleatória: a profundidade é estipulada so por ti mesmo.

Ficaste curioso?!

Antes de explicar melhor como vamos nos organizar nesta edição 3Parágrafos, quero contar o motivo deste “makeover”.

Volto a estudar em setembro (mestrado & certificação, yeah! ?) e é bem provável que acabe o esquema de teletrabalho (oh, no!), recomeçando a rotina de ir pro escritório.

Com isso, o meu tempo vai ser dividido por muito mais tarefas e penso que não conseguiria dar a atenção que a antiga versão pedia…

O Club dos Contos, edição 3Parágrafos, segue mais solto, mais leve, mas não menos produtivo!

A estratégia é reduzir o passo mas seguir avançando com o Clube, porque respeitar o nosso ritmo é o mais importante.

É sinal de comprometimento e autoconhecimento.

E o clube é um compromisso meu comigo mesma, para eu reconstruir meu hábito de escrever. É também um convite para que tu venhas comigo nesta jornada.

É um espaço aberto para o exército da nossa criatividade.

A partir deste mês, o Clube vai ganhar um novo formato, a começar pelo tamanho dos textos: se antes era no bom senso da regra do conto (o suficiente para ser lido de uma vez só) agora vamos reduzi-lo a três parágrafos.

Serão dois temas por mês: ou escolhes um, ou fazes os dois!

E se quiseres feedback, alguma dica ou orientação, nos falamos por DM (lá no Instagram), comentário ou envias-me teu texto por e-mail. ? Prometo responder-te.

Ao longo das semanas, também vou publicar por aqui dicas de escrita criativa.

Diz-me tua dificuldade, que juntos a ultrapassaremos. ?

O Clube dos Contos, edição 3Parágrafos, só tem essa regra: três parágrafos.

Pode ser crônica, conto ou texto livre, pode ser real ou ficção. Sci-fi, Steampunk, Fantasia, Romance, Biográfico, Terror…

Ah! E se publicares teu conto no Instagram, usa a hashtag #ClubeDosContos e marca-me no post.

Ah! Também quero te pedir ideias de temas, assuntos interessantes para escrevermos… (podes deixar tua contribuição ali nos comentários!)

Os contos de Setembro do serão inspirados por fotografias…

Escolhe uma das fotos como referência – ela pode ilustrar o começo ou o final do teu conto. Que história a foto conta-te? Coloca-a no papel…

Primeira opção: Os Três, do Sérgio Jesus, @rocker_pt
Segunda opção: A Porta, do Gabriel Jared, @gabrieljared.jpg

O Clube dos Contos, edição 3Parágrafos, começa agora!

Que as Musas inspirem-te!

Solta a caneta no papel e deixa fluir a criatividade.

Mas se as ideias estiverem pouco nítidas, vamos conversar! Talvez eu posso te ajudar a encontrar o foco mais adequado.

Bem-vindo, bem-vinda, ao Clube dos Contos, edição 3Parágrafos.

Esplanada

Fulano pergunta: Já pensaste sobre o que significa liberdade, pra ti? 

Liberdade? Tipo, fazer tudo o que eu quiser, na hora que quiser, do jeito que quiser? Acho que sim, já viajei nesse delírio juvenil, quem nunca? Embora, no fundo, o velho em mim sempre faça a pergunta: qual o preço a se pagar?

Preço? Então pensas que liberdade implica em responsabilidade, é isso?

Ora, e não? Liberdade sem responsabilidade seria insensatez, não achas? Já imaginaste se não houvessem consequências para os nossos atos?

Saber calcular as consequências, e fazer um “balanço financeiro” deste preço é o que nos faz adultos? Já que colocaste a liberdade sem limites como um delírio juvenil, é isso o que separa os adultos dos jovens?

Assim, na ordem cronológica? Por esta consideração, não conheces adultos tão ou mais imaturos que muitos jovens, pois não? 

Tens razão, a cronologia nem sempre traz maturidade; era disso o que tu falavas: maturidade?

Na verdade, sim, e tenho me perguntado – divido a questão contigo: não seriam as nossas inúmeras escolhas – das triviais às mais significativas – que moldam nossa liberdade, justo porque as fazemos (ou deveríamos fazê-las) com a cautela de quem responde pelas consequências?

Sim, temos este caminho pela frente, e o paradoxo de Neruda: “és livre para fazer tuas escolhas, mas és prisioneiro das consequências”. Já escolheste o que vamos jantar?

Este pequeno conto é fruto das provocações filosóficas da Joana Rita, responsável pelo Clube de Perguntas*. No lugar de falar do clube, vou indicar a leitura do post o que distingue as pessoas perguntadoras das outras pessoas? 😉

Desafio de escrita #1

O mapa, a máquina fotográfica e o cogumelo

Escolhi 3 dados aleatoriamente, para ilustrar um post… acabou por virar um desafio de escrita!

Naquela tarde, sai para uma caminhada despretensiosa. Escolhi caminhos aleatórios, para conhecer melhor a região. O céu azul, o vento fresco de outono, folhas estaladiças pelo chão… Foi o cheiro de mato que me guiou até um bosque próximo, logo depois do parque, a alguns metros da minha rua. Por ser em uma direção oposta a que tomo todos os dias, aquele lugar era completamente novo pra mim.

Distraída, segui pela trilha aberta por outros passos, e quando dei por mim já estava a vaguear por entre as árvores. O sol fraco trespassava os galhos e emprestava um brilho diferente às folhas amareladas pela estação. Pequenos insetos voadores cruzavam meu caminho e o barulho da cidade ficava cada vez mais distante.

Gosto de caminhar para pensar. Assim consigo me desligar das questões do dia a dia. É um processo de descolamento da realidade, e ao mesmo tempo, um mergulho no meu eu-interior.

O bosque não era muito denso, o que permitia que eu mantivesse o parque sob o olhar, a alguns metros de distância. Apesar de estar sozinha em um local até então desconhecido, não sentia medo, mas a liberdade de estar na natureza.

Parei, observei ao redor, e foquei a atenção em uma das maiores árvores dali. Não muito grande, mas o suficiente para se destacar. Ainda não tinha perdido todas as suas folhas, mas anunciava que o outono já ia ao meio. No chão, muitas folhas de múltiplos tons, do amarelo ao castanho. Mas algo em seu tronco gritava por atenção, prendendo o meu olhar: os mais estranhos cogulemos que já vi salpicavam o tronco da árvore como degraus, subindo em círculos, e conferiam ao momento uma atmosfera mágica, extranatural, quase a retirar aquele lugar do mapa real, e transportá-lo para alguma terra mítica, fantástica das histórias infantis.

Sorte a minha que os telemóveis há tempos são verdadeiras máquinas fotográficas, com suas lentes XPTO. Saquei uma foto, com medo de que aquele instante se perdesse na minha memória. Depois de retornar a casa, esta tarde seria história, e as preocupações quotidianas seguiriam seu curso. Entretanto, aquela cena estaria ali, impressa, emoldurada na parede, como um portal pronto a me levar de volta aquele tempo quimérico.

Prima Berta

Naquela noite, o jantar seria na casa da prima solteirona e endinheirada, dona de quase metade da cidade. Berta se achava acima do bem e do mal: coisa que herdara de seu pai, junto com todos os apartamentos, lojas e galpões espalhados pelo centro da capital.

Ela não não tinha tempo para romances, repetia exaustivamente, como quem quer acreditar no que diz. Mas, desde garoto, eu atribuía sua solteirice aquele penteado de cacatua, e ria sozinho ao imaginar um primeiro encontro.

– Quase sete meia! A prima não tolera atrasos! – esbravejou mamãe, ainda com os olhos presos no velho relógio de pulso, zanzando pela casa a procurar a piteira de prata e ouro: “presente da prima”, justificava.

Eu, sentado na sala a esperar toda aquela movimentação pra sairmos, deixei que as recordações corressem soltas. Já não aparecia por ali há uns bons 15 anos. Como o tempo passa rápido, e não nos damos conta, divaguei. Se bem me lembro, a última vez foi no Natal de 2002, um pouco antes da minha viagem. Ganhei de presente de uma tia-avó um combinado de gola rolê e cachecol para me aquecer no inverno que enfrentaria em breve. Na época, eu os odiei! Agora, me recordo com carinho daquelas mal tricotadas peças. Por que ficamos tão nostálgicos na casa dos nossos pais? Até as coisas ruins me parecem divertidas, como na vez que quase perdi o dedão do pé, ao dar uma topada na borda da piscina. Ali mesmo, onde escorreguei no trampolim e dei a maior barrigada já registrada na casa dos Guimarães Boaventura. Sorrio ao me lembrar dessas tontices da minha adolescência.

A casa da prima Berta continuava como nas minhas lembranças: grande demais e entulhada de coisas que não conversavam entre si.

Os convidados aguardavam na sala de estar, bebericando e conjecturando o futuro da nação, todos ali se achavam políticos e milagreiros!, quando uma engomada copeira nos chamou para à mesa.

– Hum, lugares marcados! Típico da prima, que adora impressionar por seus requintes europeus, maldisse o mal-humorado marido da minha irmã.

Todos sentados e com os copos servidos, Berta bateu, levemente, com as costas da faca na taça de cristal, a pedir atenção:

– Queridos familiares e amigos, eu os chamei aqui por uma razão…

Antes que pudesse terminar sua frase, os sussurros começaram. A mesa, não muito grande se comparada ao ambiente, acolhia confortavelmente os 18 convidados e sua anfitriã, de repente pareceu pequena e incômoda. O que a prima teria a dizer? Por que juntara a todos nós, assim, num dia qualquer? Seria doença? Ela vai morrer???

Berta interrompeu os pensamentos e seus burburinhos para acabar com as especulações:

– Nosso jantar será o último, nesta casa. A penúria enfim me alcançou. Ao servir este frango assado e caçarola para a sobremesa, comunico a todos: o cascalho acabou!

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Este singelo conto é uma resposta ao desafio feito pela Maria Rachel, através da deliciosa Terapia da Palavra. Espero que gostem.

Imagem destacada: Freepik

Você tem medo de quê?

Ela a olhou bem fundo dos olhos. Aquele instante pareceu uma eternidade. Rasgando o silêncio, a pergunta a trouxe de volta do transe: qual o seu medo? Silêncio. Olhos nos olhos.

– me responde: qual o seu medo?

Agora, ela desviou o olhar. Não conseguiria sustentá-lo por mais tempo. Talvez, neles a outra visse a resposta. Ou a vergonha fosse maior.

– Vergonha? – ela pareceu ler seus pensamentos: – vergonha de quê?

Não sabia dizer. A mente estava embaralhada, os olhos, turvos, os ouvidos, zunindo. Já não ouvia mais nada. O tempo parou. A outra continuava matracando qualquer coisa.

– Medo de quê? Vergonha de quê? O que está acontecendo?

Ela cambaleou. As perguntas ecoavam pela cabeça, que agora doía mais que de costume.

– Medo? Qual? Vergonha? Por quê?

Deu um passo à frente, mas esbarrou no espelho que lhe encarava de volta.

Photo credit: ethermoon via VisualHunt.com / CC BY-ND
Photo credit: ethermoon via VisualHunt.com / CC BY-ND

Sobre a singularidade na pluralidade

Um ensaio pseudo-filosófico.

Cheguei a uma conclusão. De tão diferentes e únicas, somos todas parecidas – quase iguais, pra ser bem sincera. Tudo bem. Você pode preferir azul, gostar mais de salgado, odiar pimenta e se deixar levar por um cheirinho mais adocicado. Prefere homem só um tantinho assim mais alto do que você? E um loirinho te chama mais a atenção? Ok. Nestas preferências somos bem diferentes.

Mas, quando falo da vida, quando escrevo o que – lá no fundo – me importa, encanta, assusta e estarrece, você concorda comigo. E ainda tem gente que diz ter lido seus próprios pensamentos.

Esta é minha teoria da singularidade na pluralidade. Somos tantas e tão iguais! Queremos as mesmas coisas. Temos os mesmos valores. Oscilamos em proporções. Na média matemática – onde os números não mentem jamais – somos estatisticamente parecidas. Muito mais parecidas do que gostaríamos.

Qual foi a mulher que nunca, num primeiro ou segundo encontro, ouviu aquele cara declarar que seu-olhar-é-uma-coisa-de-louco-que-o-tira-do-sério?

Um diálogo assim não está tão longe da vida como ela é:
– pára, vai… não faz assim.
– o quê? O que eu fiz? – diz ela, meio inocente.
– pára de me olhar assim. Declara ele, meio perturbado.
– assim como? Esse é o meu olhar normal…
– não brinca, vai… quando você me olha assim, chego a ficar tonto.

Neste momento, um pensamento devastador passa pela cabecinha de vento da nossa mocinha: se eu não estou fazendo nada e ele está assim, tonto, imagina quando eu usar o meu-olhar?!

Agora sim, ela tem a certeza de que seu olhar magnético é maior arma de sedução. E capricha nas voltas e reviravoltas dos semi-cerrados olhos lascivo – de glóbulos oculares à ogivas nucleares.

Ahhh… com você é um jeito de mexer nos cabelos, virando delicadamente o pescoço na direção dele? Seria aquela mordidinha no lábio? Uma passadinha de língua pelo canto da boca? Ou então o jeito particular de morder – distraidamente – o cantinho da unha, o canudinho, ou seja lá o que for!

Bem-vinda ao clube. Somos mesmo todas iguais.

Encantadas pela lábia masculina. Eles nos dão o poder, e envaidecidas, caímos na armadilha de sedução deles – nos entregamos e acreditamos [nem sempre] que desta vez vai ser diferente. Enfim encontramos O Cara.

Vaidade é nosso pecado.

E assim, muito parecidas, somos imensamente diferentes. Singular, na verdade. Até mesmo nas mais idênticas situações.

No meu mundo particular, minha desinência plural se encerra nas muitas mulheres que brinco ser. E neste caso, somente pra ele.

  • Esse olhar eu vi aqui. *