Esqueci de mastigar

Hoje me dei conta: não sei mastigar. Ou melhor, desaprendi.

E esse é um fenômeno que se alastra por algumas áreas da minha vida.

Não mastigo a comida. Como rápido, mal sinto o gosto, ou mesmo saboreio as garfadas. É a pressa, digo pra mim mesma.

Não mastigo as informações. Engulo todos os conteúdos que acho pelo caminho, tentando digerir o que aprendo – já no estômago, é verdade.

Não acredito que isso seja algo que esteja acontecendo só comigo. Também não quero colocar na fogueira todos a minha volta. Apenas percebo que isso é fruto de um estilo de vida insustentável que cozinhamos, ansiosos, na tentativa de…  de que mesmo???

Hoje, devorando a macarronada (sou louca por pasta!) que fiz às pressas, a ficha caiu.

Tá na hora de parar, respirar e voltar ao ponto onde eu, simplesmente, tentava descobrir todos os ingredientes usados para temperar aquilo que, lentamente, eu saboreava. (Nem preciso completar de que isso vale para tudo, não é mesmo?!) 😉

macarronada

Photo by Stuart Miles, published on 20 August 2011. Stock Photo – image ID: 10053865

Silêncio desconfortável, ou "Não Posso Dizer Tudo O Que Penso".

O ano passou num piscar d’olhos… é a frase mais batida que ouço por aí. Mas, concordo: é verdade.

E na correria, deixei de dizer muita coisa que penso, porque teria que me aprofundar nas explicações e, sem elas, passaria por leviana, hipócrita e cria-caso! Confesso que fiquei com preguiça. Muita. Porque não deveria dar explicações, já que a obviedade é uma gritante na situação.

Estou com preguiça também dos dedos na cara, das vias de mão única, do direito que bate no peito mas não olha o rabo. Estou cansada! E com isso, sinto que perco espaço, que não me encaixo… não pertenço. Só que esta não é uma preguiça triste, já que ganho liberdade, leveza, congruência – e me sinto viva, inteira.

Pode até ser que um dia ainda leve um tapa na cara. Mas, eu devolvo, viu?!

Os políticos são o câncer do Brasil

Corruptos, sem a menor força política – ou de vontade! – para representar quem deveriam. Fazem pouco do país e do seu povo. Embora muito empenhados na busca pela resposta à principal questão que os levou ao poder: – “O que eu ganho com isso?”

E o cidadão-médio, indignado, faz revoluções semanais no Twitter e no Facebook. Marca eventos que nunca sairão do virtual só para mostrar a força que tem.

Acontece que foi este cidadão-médio que votou no político corrupto. Por falta de escolha, ignorância, burrice, preguiça, ingenuidade, implicância ou sei-lá-o-quê.

Esse mesmo cidadão-médio que fica indignado ao ver, do seu sofá de couro (fake), o Willian Bonner, na TV LED LCD 55″ Full HD, apresentar o escândalo da hora, em detalhes do dia a dia, dos anos de investigação e operações especiais da inteligência da polícia, batizadas com codinomes intelectuais ou mitológicos.

Esse cidadão-médio clama por justiça. Diz não ser palhaço. A sua voz ganha volume, e junto com seus iguais pode até tomar as ruas, em protesto arrastado pelo asfalto no Centro da Cidade.

Já imaginou a cena? Então para aqui.

Vamos mudar os cenários para eu tentar mostrar o porquê da minha preguiça,
e fazer um paralelo (que espero ser) desnecessário.

O cidadão-médio, sob a Lei de Gerson

Alguém veste uma camiseta com os dizeres de um senhor do passado, dito maluco pelos seus ares de profeta. Gentileza era sua alcunha. Pregava fraternidade, bem-viver. Tentativa sua de resgatar a humanidade perdida em uma viagem ególatra a la LDS. Gentileza pintava muros, querendo derrubá-los. Bordava bandeiras, símbolos-pretensos de uma Companhia de Homens Gentis.

Esse alguém tem a mão na buzina, como a gritar um dicionário inteiro de palavras de baixo calão, na intenção de repreender, xingar, humilhar, colocar no devido lugar um outro cidadão-médio que parou em lugar proibido, por falta de vaga, cara de pau, ignorância, sem-vergonhice ou direito-torto adquirido por ter pago alguns dos impostos devidos.

Alguém ouve sua música preferida, no mais alto volume, em seu celular último modelo, importado da China, no coletivo automotor. A certeza do seu direito é tanta, que levanta o nariz para todos que lhe mostram caras de reprovação. Se for o caso, bate no peito. No seu próprio e no do outro, em distintas demonstrações de poder.

Alguém esvazia os bolsos, a bolsa, deixando no caminho um rastro de lixo. Porque a rua é suja mesmo. Todo mundo faz. Um papel a menos não fará diferença. E, afinal, os garis precisam de emprego! O governo que varra essa sujeira para dentro dos bueiros. Ora!

Alguém joga o troco do pão. Mas, também… dormiu muito mal e acordou com pesadelos! Esperou o neto voltar do baile e, valha-me Deus, que ele não esteja caindo de tão drogado, ‘ssemenino, irresponsável, alimentando o crime, Senhor! No pesadelo, a cobra, Satanás (tá amarrado!), é a chance de uma graninha extra, cercada por todos os lados, devidamente carimbados pelo anotador do bar da esquina.

Alguém tenta um esquema para pagar menos.

Alguém fala com o amigo do tio, na esperança de furar a fila e chegar antes.

Alguém consegue economizar porque agora paga meia nos cinemas, shows e peças de teatro, pessoa culta, não dispensa cultura com desconto. Porque, afinal, não era para ser tão caro assim…

Alguém pega, sem consentimento, alguma coisa de outra pessoa. E a consciência alega que são tantas as coisas, que não fará falta. Nem notará, não é mesmo?

Agora, se muda a dinâmica, peraí!, não é bem assim… tem uma explicação. É importante. Eu preciso. E, normalmente, o Eu preciso é tão forte, que o outro fica pequenininho por comparação. Aí dá para passar por cima. Porque o mundo é assim mesmo: farinha pouca, meu pirão primeiro.

Favor, só se for a meu favor. Gentileza, você precisa; eu, nem tanto. Sabe com quem está falando?

Faço o que posso. E dou um jeitinho no que não posso.

Agora, voltemos aos políticos…

Estes precisavam ser de outra raça! Criados por Alguém, passam de cidadão-médio à excelência, ganham oportunidade e horizontes mais largos. Partem para uma vida nada mundana – cheia de direitos, títulos e autoridade. Se, no passado agiram como alguém, no novo cargo suas chances serão ainda maiores e justificadas, afinal.

Aos olhos do cidadão-médio, perdem a humanidade, a referência, a similaridade…

O cidadão-médio, tal qual macaco, aponta o dedo, mas não vê o próprio rabo.

 

[list5]Imagem: Jannike, Deviantart[/list5]

O vilão

darth_vader“Ao fabricarmos nossos vilões, é como se pudéssemos transferir para eles tudo aquilo que soa demasiadamente grotesco diante do senso de moralidade e bom gosto e nos limpássemos das mazelas com as quais compactuamos.”

– Revista Mente e Cérebro.

Senhora censura

Para tudo o que pensava ou dizia, ouvia: isso não pode.

Rascunhava alguns traços, umas letras. Combinava coisas, bolava caminhos diferentes. Criava teorias desconcertantes. E lá estava ela, imperiosa, a balançar a cabeça impedindo o avanço. Aquela senhora, dona de toda a verdade, continuava em sua cola, a lhe cobrar compostura e razão. Continue lendo “Senhora censura”

Impacto

[Abri o baú, e não é que o primeiro texto que vejo é esse? Nesse momento, retiro os óculos, me recosto na cadeira, numa meia espreguiçada tímida, inspiro fundo e volto para o mundo. Taí, não preciso dizer mais nada…]

Outro dia, quando eu pesquisava para um novo projeto, me deparei com uma frase do escritor francês André Gide que – desde então! – não me deixa o pensamento: “Que a importância esteja em teu olhar e não na coisa olhada”. Continue lendo “Impacto”