Kintsugi e a arte dos relacionamentos

– O relacionamento é como um cristal, sabe? E quando se quebra, não há mais volta.

Embora tenha se passado mais de 20 anos, ainda o lembro proferir essa frase. Acho que por não concordar, e ter a forte sensação de que a analogia perfeita para relacionamentos estava mais para a arte do Kintsugi.

Digo “forte sensação” porque na época eu não sabia, não tinha a mais remota ideia do que era Kintsugi. Isso, eu aprendi depois. Bemmmm depois! Se não fosse pela maravilha da internet, ou pelo São Google, talvez eu nunca ficaria sabendo.

Kintsugi
Fonte: Blog Hey Goat Hold It | http://heygoatholdit.blogspot.com.br/2010/12/kintsugi.html

Kintsugi é a arte tradicional japonesa de reparação da cerâmica, que fixa os pedaços com laca polvilhada ou misturada com pó de ouro, prata, platina. É mais uma filosofia de vida, já que trata a quebra e a reparação como parte da história do objeto, ao invés de algo para se disfarçar.

Lindo, não?

E mais: os cristais, para mim, belíssimos, finos e raros, sempre estiveram na prateleira, guardados, quase intocáveis, a espera de uma ocasião especial para, só então, serem usados, exibidos, ostentados. E isso nunca combinou com minha ideia de relacionamento!

É no dia a dia que as relações se criam e se fortalecem: nesse cotidiano louco, corrido, muitas vezes no automático, entre o trabalho, o supermercado, as contas para pagar, o médico, a louça na pia…

É mais fácil descartar do que focar a energia para se consertar algo quebrado? Talvez seja mais prático jogar fora e comprar outro novo. Eu concordo com isso, quando falamos de pratos e copos; mas não com algo de valor, como a xícara da vovó que ainda uso como medida na hora de fazer o bolo. Muito menos quando falo de relacionamentos!

Outro dia, no Facebook, alguém perguntou se também nos enjoávamos das pessoas, ao que muitos responderam positivamente, e se confortavam por não serem os únicos com tais sentimentos.

Aquilo me causou estranheza e me entristeceu. Confesso que o umbigo doeu: será que alguém já se enjoou de mim???

– Ah! Com certeza, dona Ana Beatriz!

– Malditos tempos líquidos, senhor Bauman!

Eu sei que toda relação tem um fim. Apenas não quero ser aquela que abrevia relações: prefiro consertá-las com ouro, prata ou platina, simplesmente por acreditar que há beleza nas diferenças, que aprendo e me modifico no viver com o outro. São essas marcas, ou cicatrizes, se preferir, que me fazem mais forte, mais eu.

Eu sou a favor do Amor!

Vendo agora o documentário Família no Papel, no GNT, me dou conta do porquê me emocionar tanto com a questão dos Direitos dos Homossexuais no mundo inteiro.

E digo: ainda brigo pouco por isso.

Por que raios duas pessoas não podem se amar? Por que duas pessoas não podem viver o amor, construir sua família, demostrar publicamente o carinho e o afeto que sentem por seus pares???

Apenas por serem do mesmo sexo?

Isso faz algum sentindo? Onde?

Tente me explicar, por favor.

Obviedades

Hoje, escutei – novamente! – uma obviedade: não tome o todo pela parte, nem a parte pelo todo. Pelo que vejo por aqui, ou isso não é tão óbvio assim, ou muita gente precisa repetir esta frase feito mantra.

 

A Morte

A morte é tão certa… acredito que é uma das poucas certezas da vida.

Ela vai chegar. E não há como escapar. A não ser nos filmes fantásticos…

Mesmo assim, sabendo que é o fim certo de todas as coisas vivas, quando ela chega… bem, ela rasga o peito, abre um vazio no chão, distorce a razão, embaralha os sentidos, emputece.

Sim, eu estou puta da vida por ter perdido um grande amigo da vida inteira.

534049_10150704482167921_1056830447_nNem lembro como a gente se conheceu. Foi antes da faculdade, antes de 1991. E mesmo que nossos encontros, ultimamente, fossem esporádicos, Tony era um amigo certo – daqueles poucos que a gente sabe que pode contar pra tudo na vida. Até esconder um corpo.

Vivemos dias incríveis! Ou melhor, noites! Porque o Tony era O Senhor da noite. Conheci boates ótimas, festas badaladas e muitas pessoas bacanas!

Foi com o Tony o meu primeiro porre de saquê, de Jack Daniel’s e de absinto, que ele servia em um ritual à green fairy.

170298_497537292920_5237799_oFoi com ele também que fui a todos os dias de Free Jazz Festival. Alguns de Rock in Rio, muitos do antigo Canecão, Joe Satriani, Simple Red, e tanto outros que nem me lembro. (Como ele amava os shows!).

No meu aniversário, em 2004 (ou seria 2003?), ele levou meus melhores amigos para passarem o feriado comigo em Búzios (na época, eu trabalhava lá!), organizou banquetes e muitas bebedeiras. Foi ótimo.

Foi o Tony quem me apresentou aos melhores DJs do Rio de Janeiro – uma turma de amigos que guardo no coração até hoje.

Ah! Foi por conta do Tony, e do Rafa, que conheci o amor da minha vida, e vivi uma paixão avassaladora que deixou brasas no meu peito ardendo até hoje. A paixão se descobriu platônica. E o namorado, um dos meus melhores amigos.

Como presente de 41 anos, ele me deu o México! Foram 13 dias mágicos entre Acapulco, Los Cabos e Cidade do México. Conversávamos por horas a fio, brigamos (claro!), rimos, ficamos bêbados de Mezcal. Mergulhamos no Pacífico. Subimos as pirâmides do Sol e da Lua (até a metade, porque faltou ar!!!).

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A morte chegou antes do tempo para o Tony. Por mais que ele tenha vivido tudo intensamente, exageradamente, nababescamente.

Era para ele ser um velhote chato e surdo, que conta e reconta as histórias mais fantásticas de todos os tempo.

Mas não vai ser.

Acabou.

Restou a saudade… até as lembranças o tempo e a idade vão deixando pelo caminho.

Mas a saudade ninguém vai arrancar do meu peito.

Vai na paz, querido. Um dia, a gente se reencontra.

Esqueci de mastigar

Hoje me dei conta: não sei mastigar. Ou melhor, desaprendi.

E esse é um fenômeno que se alastra por algumas áreas da minha vida.

Não mastigo a comida. Como rápido, mal sinto o gosto, ou mesmo saboreio as garfadas. É a pressa, digo pra mim mesma.

Não mastigo as informações. Engulo todos os conteúdos que acho pelo caminho, tentando digerir o que aprendo – já no estômago, é verdade.

Não acredito que isso seja algo que esteja acontecendo só comigo. Também não quero colocar na fogueira todos a minha volta. Apenas percebo que isso é fruto de um estilo de vida insustentável que cozinhamos, ansiosos, na tentativa de…  de que mesmo???

Hoje, devorando a macarronada (sou louca por pasta!) que fiz às pressas, a ficha caiu.

Tá na hora de parar, respirar e voltar ao ponto onde eu, simplesmente, tentava descobrir todos os ingredientes usados para temperar aquilo que, lentamente, eu saboreava. (Nem preciso completar de que isso vale para tudo, não é mesmo?!) 😉

macarronada

Photo by Stuart Miles, published on 20 August 2011. Stock Photo – image ID: 10053865

Silêncio desconfortável, ou "Não Posso Dizer Tudo O Que Penso".

O ano passou num piscar d’olhos… é a frase mais batida que ouço por aí. Mas, concordo: é verdade.

E na correria, deixei de dizer muita coisa que penso, porque teria que me aprofundar nas explicações e, sem elas, passaria por leviana, hipócrita e cria-caso! Confesso que fiquei com preguiça. Muita. Porque não deveria dar explicações, já que a obviedade é uma gritante na situação.

Estou com preguiça também dos dedos na cara, das vias de mão única, do direito que bate no peito mas não olha o rabo. Estou cansada! E com isso, sinto que perco espaço, que não me encaixo… não pertenço. Só que esta não é uma preguiça triste, já que ganho liberdade, leveza, congruência – e me sinto viva, inteira.

Pode até ser que um dia ainda leve um tapa na cara. Mas, eu devolvo, viu?!

Os políticos são o câncer do Brasil

Corruptos, sem a menor força política – ou de vontade! – para representar quem deveriam. Fazem pouco do país e do seu povo. Embora muito empenhados na busca pela resposta à principal questão que os levou ao poder: – “O que eu ganho com isso?”

E o cidadão-médio, indignado, faz revoluções semanais no Twitter e no Facebook. Marca eventos que nunca sairão do virtual só para mostrar a força que tem.

Acontece que foi este cidadão-médio que votou no político corrupto. Por falta de escolha, ignorância, burrice, preguiça, ingenuidade, implicância ou sei-lá-o-quê.

Esse mesmo cidadão-médio que fica indignado ao ver, do seu sofá de couro (fake), o Willian Bonner, na TV LED LCD 55″ Full HD, apresentar o escândalo da hora, em detalhes do dia a dia, dos anos de investigação e operações especiais da inteligência da polícia, batizadas com codinomes intelectuais ou mitológicos.

Esse cidadão-médio clama por justiça. Diz não ser palhaço. A sua voz ganha volume, e junto com seus iguais pode até tomar as ruas, em protesto arrastado pelo asfalto no Centro da Cidade.

Já imaginou a cena? Então para aqui.

Vamos mudar os cenários para eu tentar mostrar o porquê da minha preguiça,
e fazer um paralelo (que espero ser) desnecessário.

O cidadão-médio, sob a Lei de Gerson

Alguém veste uma camiseta com os dizeres de um senhor do passado, dito maluco pelos seus ares de profeta. Gentileza era sua alcunha. Pregava fraternidade, bem-viver. Tentativa sua de resgatar a humanidade perdida em uma viagem ególatra a la LDS. Gentileza pintava muros, querendo derrubá-los. Bordava bandeiras, símbolos-pretensos de uma Companhia de Homens Gentis.

Esse alguém tem a mão na buzina, como a gritar um dicionário inteiro de palavras de baixo calão, na intenção de repreender, xingar, humilhar, colocar no devido lugar um outro cidadão-médio que parou em lugar proibido, por falta de vaga, cara de pau, ignorância, sem-vergonhice ou direito-torto adquirido por ter pago alguns dos impostos devidos.

Alguém ouve sua música preferida, no mais alto volume, em seu celular último modelo, importado da China, no coletivo automotor. A certeza do seu direito é tanta, que levanta o nariz para todos que lhe mostram caras de reprovação. Se for o caso, bate no peito. No seu próprio e no do outro, em distintas demonstrações de poder.

Alguém esvazia os bolsos, a bolsa, deixando no caminho um rastro de lixo. Porque a rua é suja mesmo. Todo mundo faz. Um papel a menos não fará diferença. E, afinal, os garis precisam de emprego! O governo que varra essa sujeira para dentro dos bueiros. Ora!

Alguém joga o troco do pão. Mas, também… dormiu muito mal e acordou com pesadelos! Esperou o neto voltar do baile e, valha-me Deus, que ele não esteja caindo de tão drogado, ‘ssemenino, irresponsável, alimentando o crime, Senhor! No pesadelo, a cobra, Satanás (tá amarrado!), é a chance de uma graninha extra, cercada por todos os lados, devidamente carimbados pelo anotador do bar da esquina.

Alguém tenta um esquema para pagar menos.

Alguém fala com o amigo do tio, na esperança de furar a fila e chegar antes.

Alguém consegue economizar porque agora paga meia nos cinemas, shows e peças de teatro, pessoa culta, não dispensa cultura com desconto. Porque, afinal, não era para ser tão caro assim…

Alguém pega, sem consentimento, alguma coisa de outra pessoa. E a consciência alega que são tantas as coisas, que não fará falta. Nem notará, não é mesmo?

Agora, se muda a dinâmica, peraí!, não é bem assim… tem uma explicação. É importante. Eu preciso. E, normalmente, o Eu preciso é tão forte, que o outro fica pequenininho por comparação. Aí dá para passar por cima. Porque o mundo é assim mesmo: farinha pouca, meu pirão primeiro.

Favor, só se for a meu favor. Gentileza, você precisa; eu, nem tanto. Sabe com quem está falando?

Faço o que posso. E dou um jeitinho no que não posso.

Agora, voltemos aos políticos…

Estes precisavam ser de outra raça! Criados por Alguém, passam de cidadão-médio à excelência, ganham oportunidade e horizontes mais largos. Partem para uma vida nada mundana – cheia de direitos, títulos e autoridade. Se, no passado agiram como alguém, no novo cargo suas chances serão ainda maiores e justificadas, afinal.

Aos olhos do cidadão-médio, perdem a humanidade, a referência, a similaridade…

O cidadão-médio, tal qual macaco, aponta o dedo, mas não vê o próprio rabo.

 

[list5]Imagem: Jannike, Deviantart[/list5]

Retrospectiva

Este foi, definitivamente, o ano das mudanças. Grandes e boas mudanças. Quem diria que perder o emprego em março poderia me trazer até aqui?

Por outro lado, também perdi grandes amigos. E esse foi o mais duro golpe. Tantos anos caminhando juntos, hoje seguimos caminhos bem diferentes. Não sei se a vida vai nos colocar de novo na mesma estrada – isso ao futuro pertence, e não é o assunto que quero falar.

Mudei de emprego, mudei a cor do cabelo e depois, de corte. Enfim, troquei de profissão (mas essa também tem a ver com escrever – e muito!), de amigos e de ares. Escolhi um novo caminho, outras responsabilidades, novos desafios. Emagreci. Cortei o cabelo. Estou até pensando em deixá-lo grisalho…

Encarei minhas mentiras, desafiei algumas verdades.

Tudo isso pode parecer besteira e não chegar em 1% de alguns problemas de muitos por aí. Não importa. Revendo o que aconteceu, percebo que quebrei paradigmas, ampliei meus limites e me superei. Minha competição é comigo mesma. Meu padrão e minha meta, eu-inteira.

2011 chega com muitas metas, oportunidades e promessas. É um ano com vocação para marco. E dos mais memoráveis. Não por eu completar 40 anos, e sim por tudo o que pretendo viver.

Preparação para 2011

É,  estou em clima de fim de ano. Sabe aquele momento de repensar o que foi feito, planejar o que virá, estabelecer metas… poizé. Muita coisa mudou em 2010. Novos ciclos começaram, outros caminhos a trilhar, em outras companhias.

Hoje, percebo que até meus erros têm saldos positivos: aprendi muito com eles. Impulsionaram um novo eu. E as marcas que deixaram, bem… essas  serão lembradas como possibilidades de um novo desenho do amanhã. Continue lendo “Preparação para 2011”

O vilão

darth_vader“Ao fabricarmos nossos vilões, é como se pudéssemos transferir para eles tudo aquilo que soa demasiadamente grotesco diante do senso de moralidade e bom gosto e nos limpássemos das mazelas com as quais compactuamos.”

– Revista Mente e Cérebro.

Paz

Hoje, eu andei pelo Leblon.

Andei de uma maneira descompromissada, sem expectativas ou hora marcada.

E me esqueci da vida.

Enquanto adentrava pelas ruas do Leblon, mais fundo ia em mim mesma.

E assim, de dentro, vi a vida mais leve, me encontrei no silêncio d’alma. Aquele silêncio mágico que tudo diz.

– Não era pesado como os silêncios que precedem os esporros. Nem denso como as calmarias antes das tempestades.

Era tranquilo. E isso me bastou.

paz

Senhora censura

Para tudo o que pensava ou dizia, ouvia: isso não pode.

Rascunhava alguns traços, umas letras. Combinava coisas, bolava caminhos diferentes. Criava teorias desconcertantes. E lá estava ela, imperiosa, a balançar a cabeça impedindo o avanço. Aquela senhora, dona de toda a verdade, continuava em sua cola, a lhe cobrar compostura e razão. Continue lendo “Senhora censura”