A Pandemia de 2020

O mundo sofre com a pandemia do novo coronavírus, popularmente chamado de Covid-19. O surto começou na China e, em poucas semanas, se espalhou pelo mundo, que (falha em ) toma medidas de isolamento para tentar travar a propagação do vírus SARS-CoV-2.

Imagem ampliada do novo coronavírus, o SARS-CoV-2. Fonte: Wikipédia.

Segundo a cobertura ao minuto do Público.pt, às 19h30 de 13 de abril de 2020 (no momento em que escrevo este post), já são 1.321.000 infectados no mundo, 443.816 recuperados e 118.305 mortos.

Print-screen do jornal publico.pt, no link especial sobre Coronavírus, em 13/04/2020, às 19h30

Hoje, completo meu 34º dia de isolamento social e ainda não sou capaz de pensar com clareza sobre o que vivo.

Sou a única a sair de casa, para compras de alimentos, remédios e passeios rápidos com Loki, o cão, que se recusa a fazer suas necessidades no tapetinho higiênico (sim, já tentei de tudo!). A volta à casa é sempre tensa: estou paranóica com a higienização das compras, do cão, e minha.

Enquanto cuido de todos – meus pais estão aqui comigo, nas férias mais frustradas ever! (eles chegaram em dezembro, para o Natal, e ficariam até o começo de junho, para acompanhar minha formatura, em 30 de maio) – descuido de mim mesma, em uma procrastinação que dura semanas. Acho que só a alimentação está dentro do desejado, a mais saudável em décadas (agradeço à Fernanda Anders, pela graça alcançada!).

Se perguntarem-me o que faço nos meus dias de quarentena, não saberei dizer ao certo… a primeira semana foi de férias. A sensação de segurança era mais forte: cuidei do planeamento das compras e de como seriam as saídas. Em poucos dias, Portugal decretou o fechamento das escolas e, logo depois, o estado de emergência. Ter todos em casa foi um alívio! Nestes dias, até consegui ver algumas séries e ler qualquer coisa. Mas as semanas se seguiram preguiçosas, e as incertezas despertaram um tipo diferente de ansiedade – a falta de concentração, a insônia e a irritabilidade começaram a crescer. Uma apatia se instalou. E a cobrança por produtividade também chegou. Tudo junto e misturado.

Para os amigos, digo que nem bipolar me define. Já estou TRIpolar!

As notícias do Brasil deixam-me ainda mais aflita. Evito ler a respeito, mas cobro-me estar atenta ao que acontece na política do meu país – já estive tempo demais alienada de tudo.

Diz Paulo Coelho, em o Livro dos Manuais: “devemos nos desligar da ideia de dias e horas, e prestar cada vez mais atenção ao minuto.”. Na teoria, eu bem sei disso. Mas na prática, tenho falhado imenso!

Amanhã, mais uma vez, tentarei implementar uma rotina de estudos.

Be water, my friend

Minha mente traz à tona algumas coisas curiosas…

Às vezes, quando estou a escrever, ela dá-me uma palavra que não conheço bem, como quem liga um interruptor, uma palavra que eu nem sequer tinha noção de conhecer o significado. Ou um conceito. Ou uma citação. Algo que absorvi, aprendi, me esqueci… daí “isto” volta à mente consciente no exato momento necessário.

Por vezes, me assusto ao perceber que sei tal coisa (não é curioso?); noutras, não me dou conta e deixo fluir.

Agora, ao pensar nas mudanças que virão (será?), me lembro do discurso de Bruce Lee (sobre a arte de lutar), que cabe bem em muitas (em todas?) as situações da vida: be water, my friend.

“Empty your mind. Be formless, shapeless, like water. Put water into a cup, it becomes the cup. Put water into a teapot, it becomes the teapot. Water can flow or creep or drip or crash. Be water, my friend.”.

Fonte: https://youtu.be/cJMwBwFj5nQ

Babel

Abro uma nova folha em branca no notebook
não sem antes preparar meu canto
luz, silêncio, incenso.

O caderno está aqui, ao meu lado, mas parece que não mais sei escrever como antes.
Preciso do teclado, e da sensação táctil de premir cada tecla.
Preciso do ecrã e da sua luz amarelada, para onde olho por longos minutos antes de saber como encadear meu pensamento. E mesmo assim, não o sei.

Ele. O meu pensamento.
Tão confuso e tão errático.

Como traduzir tudo o que sinto e penso em letrinhas nesta tela?
Será que a caneta e o papel tornariam essa tarefa mais simples?

Já fui capaz de brincar com a enxurrada de pensamentos desordenados. Hoje, não tenho certeza, esqueci como se escreve. Talvez porque os 50 me peçam mais consistência. É preciso deixar ir os arroubos juvenis e assumir uma cadência que não está em mim. Porque em mim pouco mudou. Sinto como sempre, apesar da aparência denunciar os anos que passaram. Por dentro, sou a mesma: assustada, sozinha, perdida. 

Mas não é só, nem tudo é pesar. 
Dentro de mim vivem muitas e nem por isso concordamos. 
Entretanto, aprendi a dialogar, a negociar, a conciliar.
Essas tantas, que em mim moram, convivem com suas próprias dores e alegrias. 
Uma verdadeira Babel. E talvez por isso eu me defina como efervescente: vivo em constante ebulição. 

Se de um lado tem dores, os dissabores não vão além. 
Há festa, há calma, há paz. 
Porque em mim nascem flores de todas as cores. 
E com os anos, confirmei que é preciso chover para renascer. 

Todo dia, hora, minuto. 
A cada respiro
pisco e morro; 
pisco e sou.

Photo by Daniil Kuželev on Unsplash

O gosto da nostalgia

Marrom Glacê

Ao dar uma mordida no marrom glacê, fui transportada a um passado tão distante…

Vigário Geral, na casa da minha tia-avó. Uma casa quente e escura, quase sempre fechada por conta dos mosquitos. A copa-cozinha era meu lugar preferido: branca e fresca. Lá fazíamos pastel, que eu tanto amo. Na geladeira, daquelas de porta abaloada e com uma trava, sempre tinha mate (Leão, da infusão de folhas!).

Tia Dília gostava de doces, daqueles industrializados e enlatados em duplas ou trios: goiabada, marmelada e marrom glacê (o meu preferido!).

Olhos azuis lindíssimos, cabelos brancos, a pele levemente morena, ela devia ter sido bonita quando mais jovem. Mas era muito má… elegia a criança mais pequena da família como sua predileta e tratava-a com todos os mimos, até um outro bebê nascer, e ganhar seu coração.

Foto da foto dos irmãos Loureiro: Minha tia-avó Dília, o tio-avô Antônio e minha avó Clotilde Loureiro Quadros (mãe da minha mãe, que adotou o apelido Quadros do marido, Oscar).

Assim perdi meu posto para meu irmão do meio que, por sua vez, o perdeu para o caçula.

Minha mãe também comprava esses doces em lata. Mas preferia as latas de sabores únicos: só goiabada, só marrom glacê…

É… acho que é nostalgia que se chama.

P.s.1: hoje, meu marrom glacê preferido é o espanhol, do El Corte Inglês, feito de castanhas 😉


P.s.2: imagens meramente ilustrativas, via Google e Pinterest, sem fontes reconhecíveis (links quebrados). Caso saibam quem são os donos das imagens, ficarei feliz em dar o devido crédito.

I really need you tonight

Lá vem história… em 1983, Bonnie Tyler lançou uma power ballad que a levou ao topo da Billboard Hot 100. A música fez parte da trilha sonora da novela das seis Pão, Pão, Beijo, Beijo, da Rede Globo, e entrou para o hall das minhas prediletas.

Eu tinha 12 anos, e foi quando dei meu primeiro beijo na boca, na festa de aniversário do menino mais bonito da rua da minha prima, no subúrbio carioca. Estávamos dançando essa música quando rolou o beijo. Depois disso, todas as vezes que o Dudu​ tocava Total Eclipse of the Heart, nas festas do playground do PRDC, eu sentia borboletas no estômago, uma tímida ansiedade difusa: quem vai me chamar para dançar?

Confesso que a sensação de borboletas no estômago, ao ouvir essa música, ainda me rouba o ar. É nostalgia que se diz, não?

Sobre pontes e muros

Por causa de uma notícia compartilhada por uma querida amiga (a Rachel, do Terapia da Palavra), descobri Yo-Yo Ma, que diz viver entre fronteiras – físicas, culturais, musicais, e reforça que devemos construir pontes, não muros.

Yo-Yo Ma toca Bach na fronteira entre Laredo, Texas, e Nuevo Laredo, México, em 13 de abril de 2019

Longe de casa, de tudo o que me é familiar, ainda a construir o meu pedaço, me desconstruo todos os dias na tentativa de fazer pontes, de criar vínculos. Embora, em muitas horas, eu sinta um muro a me fechar.

Cruzar distâncias é cansativo – e nem falo das físicas. Dessas eu tiro o prazer de longas caminhadas. Refiro-me às distâncias entre pessoas…

Sobre a beleza

Eu sempre ouvi a frase “a beleza está nos olhos de quem a vê“, e nunca soube quem a proferiu pela primeira vez. Diz a internet que foi o filósofo e poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio, no século XIX.

Hoje, ao ver algumas fotografias feitas debaixo d’água, e ficar emocionada com tanta poesia, me perguntei se todos veriam ali a beleza que me comovia.

Fotografia de Christy Lee Rogers. Mais em mymodernmet.com/muses-christy-lee-rogers

Aprendemos o belo como quem aprende a falar. Somos ensinados a apreciar isto ou aquilo. O teu gosto pessoal não é assim tão pessoal como gostarias de acreditar. É quando damo-nos conta de tal feito que libertamo-nos para além dos limites que nos são impostos. Livres.

Talvez isso não importe tanto quando falamos de fotografias, quadros ou músicas. Entretanto faz toda a diferença quando falamos de corpos, de pessoas, de humanos. Porque impõe-nos a fronteira entre sermos aceitos ou não. Marca a divisão entre pertence e não-pertence. Secciona o valor intrínseco de cada um de nós. Categoriza. Fere. E mata.

Na Praça, os daqui e os de lá passam

Como as pessoas circulam e ocupam o espaço público?* Para responder tal pergunta, separei um par de horas para observar como a Praça Dom Luis I serve de passagem e paragem para as pessoas que circulam pela cidade. Na última sexta-feira, por volta das 17h (16h52, para ser mais exata), atravessei a avenida 24 de Julho rumo à Praça, vizinha do Mercado da Ribeira, conhecido ponto turístico-gastronômico de Lisboa. Como forasteira, me interesso em observar como os locais e os “de fora” circulam pela cidade. Os olhares são tão distintos que é quase possível afirmar, mesmo sem ouvir quaisquer palavras, se são daqui ou de lá.

 

O tempo nublado não deixa Lisboa menos fervilhante, e apesar do céu branco, a temperatura agradável, por volta dos 21º graus, convida a uma volta. O barulho da cidade se faz presente, como um constante fundo musical, e se mistura ao arrulhar dos pombos, numerosos neste pedaço de chão. Outros pássaros cantam, encobertos e incógnitos pela folhagem das árvores. Crianças brincam no cercado, a nordeste da Praça, mas seus risos e gritinhos ecoam por todos os lados. Dois cães correm pela grama, a ignorar qualquer caminhante. Um burburinho mescla todos os sons que, vez ou outra, são abafados pelas buzinas inquietas no cruzamento das ruas.

Os gramados do Jardim Dom Luis I, com suas flores, árvores e palmeiras, desenham e orientam a circulação das pessoas, mantendo uma área externa para passeio público e seis entradas para o centro da praça, onde está a estátua em homenagem ao Marquês Sá da Bandeira, fidalgo da Casa Real e ministro de Estado, nascido em Santarém em 1795. Há bancos em toda a extensão da praça, quase todos ocupados por uma ou duas pessoas, embora seja difícil observar desconhecidos a dividir o mesmo banco, salvo raras excessões.

Pelo chão, traços de um certo descuido com o descarte correto do lixo: inúmeras beatas, palhinhas, pequenas embalagens plásticas, pedaços de guardanapos de papel e outros detritos menores. Tal sujidade parece ser apenas o acumulo do avançar dia, uma vez que o jardim mostra ter seus mínimos cuidados diários. Em contraste com o aparente desvelo dedicado ao jardim, dois homens dormem no gramado, a leste da praça, enfrente ao Mercado da Ribeira. Suas roupas estão desmazeladas, desgastadas, desbotadas; seus rostos, vincados pelo tempo e, talvez, pelas dificuldades da vida. Suas poses, guardadas em mochilas encardidas, servem de almofadas, a oferecer algum mínimo conforto. Parecem alheios a tudo e a todos, entregues a sonhos, pesadelos ou nem mesmo a isso, quem é que vai saber?

Nos bancos da praça, é possível observar alguns trabalhadores a aproveitar minutos de folga: três ou quatro cozinheiros dos restaurantes do Time Out ou do entorno, um entregador do Glovo! com sua grande caixa amarela, dessas que acoplam na mota. Além de vários turistas que, pelas conversas, têm suas nacionalidades expostas: é possível distinguir, ao acaso, italiano, inglês, alemão. Sotaques diferentes de um mesmo português aparecem e somem, conforme passam grupos falantes vindos da rua de trás a caminho da 24 de Julho. Muitos são os jovens que saem das aulas do Etic, com suas vestimentas tão variadas quanto possível. Desses, todos carregam seus telemóveis na mão, muitos com fones de ouvido, em uso ou em descanso no pescoço. Entretanto, não é a faixa etária mais predominante, embora pareça ser a mais barulhenta. Homens e mulheres de todas as idades caminham na mesma direção: da rua Dom Luis à avenida 24 de Julho, vindos na sua maioria do lado noroeste da praça. Turistas denunciados por suas câmeras em punho, fazem o caminho contrário: saem da avenida em direção ao centro da praça, chamados, talvez, pelo Marquês Sá da Bandeira, ou apenas a procurar algo no Quiosque do Cais.

O Quiosque tem suas mesas quase todas ocupadas por eles, os turistas, a não ser por duas jovens estudantes que usam o espaço para colocarem em dia algum pedaço de matéria, orientadas por um manual escolar – e pelo fragmento de conversa, afirmar que estudam a História de Portugal não seria leviano. Aqui, o barulho da cidade parece ainda mais distante.
I shound’t I wouldn’t, de Jojo Effect, embala as conversas, sem que seu volume atrapalhe qualquer coisa. A fumaça de tabaco é constante, embora, por duas vezes tenha dado espaço para o agradável cheiro da fumaça de um cigarro eletrônico. Poucas pessoas comem, parecem preferir os copos: nas mesas, o Imperial Superbock de 0.40 é o mais pedido, seguido pelo café e uma ou duas taças de vinho tinto. Um único empregado de mesa se desdobra a atender toda a esplanada. Apesar do movimento, ele parece se sair muito bem.

Foi ao pedir um café, que abri espaço para que ele puxasse uma conversa. Meu inegável sotaque carioca o fez se abrir e me contar parte de sua história intrigante, que agora divido com vocês.

Rodrigo tem 28 anos. Largou seu trabalho como piloto comercial de aviões para buscar algum sentido na vida, segundo ele mesmo conta. Há cinco anos viaja pelo mundo. Primeiro, América Latina, carimbando seu passaporte por todos os países. Diz ele que, antes de partir para outro continente, se viu na obrigação moral de conhecer seu próprio e gigantesco país. E assim o fez: visitou 500 municípios brasileiros. Parte dessa aventura está registrada em um blog. Há um ano, chegou à Inglaterra; e há quatro meses está em Lisboa para resolver a documentação de sua cidadania, mas se apaixonou pela cidade e promete ficar por mais tempo.

Uma chuvinha fina começa e reduz significativamente o movimento na Praça. Alguns poucos turistas não se incomodam e continuam em seus copos. O céu escurece pelas nuvens pesadas  do aguaceiro que se anuncia, e pelo avançar das horas: já passa das 18h. É tempo de fechar o cadernos de notas e voltar à casa.

>>> Este texto é um exercício de observação não-participante, de tema livre, proposto em sala de aula e feito no dia 20 de abril de 2018.

Going grey! Sim, assumi os fios grisalhos

Minha mãe dizia que aos 17 anos já tinha cabelos brancos. Eu, desde os 15, 16 anos, mudo a cor dos meus cabelos. E já os pintei de quase todos os tons. Já fui loira com mechas, ruiva de diversas tonalidades, castanho com e sem luzes, preto azulado. Gosto de mudar. É divertido. 
 
Em 2005, passei “máquina 2”, deixando o cabelo mais curto quanto possível, e ao natural. Amei o resultado e me curti grisalha. Mas a ideia era cortar para tirar a tinta preta e poder voltar ao vermelho… Porém, logo depois, me descobri grávida. Engordei 30 quilos e me sentia envelhecida. Naquela época, com tantas mudanças, não consegui “comprar” a briga de ser grisalha aos 35 anos. Tão logo parei de amamentar, tingi os cabelos.
 
Em 2014, fiquei platinada. O loiro mais claro possível, e com ele fui feliz por mais de um ano. Até cortar curtíssimo de novo, um pixie totalmente grey e charmosérrimo. De lá pra cá, deixei crescer, mudei o tom, voltei ao loiro e ao quase platinado. Até que em novembro de 2017, (des)colori os cabelos pela última vez.
 

Ver as raizes grisalhas traz um misto de sentimentos, nem sempre bons.

Selfie feita agorinha, dia 1º de maio de 2018, às 13h

Hoje, revendo o passado penso que, aos 34 anos, 54 quilos, vestindo os tão enaltecidos tamanhos 36/38, usar os cabelos curtérrimos e grisalhos foi uma deliciosa provocação. Afinal, eu era padrão, e recebia da sociedade a permissão de ousar.  Com 13 anos e 30 quilos a mais, bem… a história é um pouco diferente.

Veja bem, eu liguei o foda-se para o que pensam de mim. Mas ainda não desliguei o meu crítico interno. E dizer isso no masculino faz todo sentido: meu crítico interno é macho, cis, branco, classe média.  Ele me diz que não tenho mais idade para certas coisas, que deveria me vestir deste ou daquele jeito, que não deveria me comportar assim ou assado. Ele é um pé no saco!

Acredito que ele participava da Comissão Reguladora dos Padrões Socialmente Aceitos, e fez, com seus colegas, essas regrinhas (idiotas) que muitos seguem sem questionar. Agora, perdendo seu poder, vendo seu templo ruir, ele se apega com força ao que pode… e lá estão todos os meus ganchos, onde ele luta para se manter. Foda, né?

Eu acho lindo todos esses movimentos de mulheres maravilhosas que se cansaram da ditadura da beleza, da juventude, do corpo, do peso, etc, etc, etc. Aplaudo de pé! Há tempos entendi o significado da liberdade de expressão, parei de julgar e abracei as diferenças. (sim, eu já fui muito, muito idiota e preconceituosa, sem ter consciência disso). Se você pensa algo de mim, que bom, saiba que isso diz muito mais sobre você mesmo, e pouco – ou quase nada – sobre mim. Eu não estou nem aí e só aproveito o que me convém, afinal, só eu sei as dores e as delícias de ser quem sou. Por isso digo que não me preocupo com você, mas com o meu crítico interno, cada vez menor e mais sem voz, mas ainda assim, dentro de mim, a me julgar e apontar. Um dia ele morre ou muda, e viramos amigos confidentes, sei lá.

Tudo isso para reafirmar que tem dias que me olho no espelho e me acho linda e corajosa por ter quase um palmo de raiz grisalha gritando ao mundo a minha escolha. Noutros, quero usar um chapéu ou correr para o salão mais próximo (mentira! Sem minha Fernanda Pio, quase não sinto vontade de ir a um cabeleireiro).

p.s.: Estou pensando em aproveitar o verão europeu para pintar a parte loira do cabelo de azul clarinho…

A escada

Essa noite, sonhei que subia uma escada muito alta, levemente bamba, daquelas simples, de metal, que encostamos na parede, sabe?

Só que no meio da subida, ela passou a ser daquelas que têm os degraus de tubos de metal fincados na parede, sabe qual?!

Sentia meus pés inseguros a procurar apoio, mas eu não olhava para baixo, com medo da altura. No alto, uma amigo a me estender a mão, a incentivar a subida.

Em um dos piores momentos, vejo passar por mim um elevador de cargas, simples, sem portas, e penso: “porra, se eu soubesse, esperaria o elevador!”

Essa, senhores e senhoras, é a metáfora da minha vida.

E eu continuo subindo a tal escada.

p.s.: no sonho, eu chegava lá em cima (onde, não sei!).

Uma bica e muitas histórias

No começo, um café

A primeira coisa que fiz ao chegar em Lisboa foi me sentar na esplanada do Café A Brasileira, na Baixa Chiado, pedir uma bica*, inspirar fundo e expirar, lentamente, toda a gratidão por estar vivendo um sonho.

(Deixa eu recapitular umas coisas, rapidinho) – Oi, eu sou a Bia e vim morar em Lisboa com meu filho de 11 anos para estudar, conhecer a Europa e viver outros ares..

É verdade que momentos antes de achar aquela mesa, assim que subi as escadas do Metro na Baixa-Chiado, deixei uma lágrima rolar – eu estava em Lisboa, afinal! É como se ali, naquele cenário, começasse um novo capítulo da minha história. Ao lado de Fernando Pessoa, registrei o momento.

O café é uma bebida social, que pontua diversos acontecimentos cotidianos, não é mesmo?

O café é o começo do dia: há quem não acorde sem antes tomar uma boa xícara fumegante. Ele, o café, finaliza refeições, está presente em reuniões de negócios, nos encontros casuais de amigos, ajuda a enfrentar noite a dentro.

Com sua rica história, ele será o meu fio condutor. Deixo aqui o convite para descobrirmos Lisboa juntos, visitando seus cafés, ouvindo causos, conhecendo sua gente.

Será um prazer tê-lo comigo.

*A história da bica do Café A Brasileira

O Café A Brasileira foi inaugurado no Chiado, em Lisboa, no ano de 1905, vendendo o “genuíno café do Brasil”. O Sr.Adriano Telles, que vivera no país, importava os grãos de produtores locais com facilidade. O sucesso fez a casa crescer, e o Sr.Telles ampliou seu estabelecimento com a Sala de Café, espaço onde se reunia a elite de Lisboa: advogados, médicos, jornalistas, escritores (Fernando Pessoa!), pensadores, revolucionários e estudantes. Todos ali se reuniam para beber café e conversar.

Na época, não havia máquinas de espresso – o café era passado por sacos e vertidos por uma torneirinha – a bica! – para as garrafas, que o serviam à mesa. Neste processo, o café esfriava e perdia um pouco do seu aroma. Diz a lenda que alguns clientes reclamaram da qualidade da bebida e que o Sr.Telles teve que intervir, pedindo que um empregado enchesse a xícara diretamente da bica. Com sabor e aroma mais intensos, o café da bica logo passou a ser o preferido de todos, nascendo, assim, o termo “bica”.

Prima Berta

Naquela noite, o jantar seria na casa da prima solteirona e endinheirada, dona de quase metade da cidade. Berta se achava acima do bem e do mal: coisa que herdara de seu pai, junto com todos os apartamentos, lojas e galpões espalhados pelo centro da capital.

Ela não não tinha tempo para romances, repetia exaustivamente, como quem quer acreditar no que diz. Mas, desde garoto, eu atribuía sua solteirice aquele penteado de cacatua, e ria sozinho ao imaginar um primeiro encontro.

– Quase sete meia! A prima não tolera atrasos! – esbravejou mamãe, ainda com os olhos presos no velho relógio de pulso, zanzando pela casa a procurar a piteira de prata e ouro: “presente da prima”, justificava.

Eu, sentado na sala a esperar toda aquela movimentação pra sairmos, deixei que as recordações corressem soltas. Já não aparecia por ali há uns bons 15 anos. Como o tempo passa rápido, e não nos damos conta, divaguei. Se bem me lembro, a última vez foi no Natal de 2002, um pouco antes da minha viagem. Ganhei de presente de uma tia-avó um combinado de gola rolê e cachecol para me aquecer no inverno que enfrentaria em breve. Na época, eu os odiei! Agora, me recordo com carinho daquelas mal tricotadas peças. Por que ficamos tão nostálgicos na casa dos nossos pais? Até as coisas ruins me parecem divertidas, como na vez que quase perdi o dedão do pé, ao dar uma topada na borda da piscina. Ali mesmo, onde escorreguei no trampolim e dei a maior barrigada já registrada na casa dos Guimarães Boaventura. Sorrio ao me lembrar dessas tontices da minha adolescência.

A casa da prima Berta continuava como nas minhas lembranças: grande demais e entulhada de coisas que não conversavam entre si.

Os convidados aguardavam na sala de estar, bebericando e conjecturando o futuro da nação, todos ali se achavam políticos e milagreiros!, quando uma engomada copeira nos chamou para à mesa.

– Hum, lugares marcados! Típico da prima, que adora impressionar por seus requintes europeus, maldisse o mal-humorado marido da minha irmã.

Todos sentados e com os copos servidos, Berta bateu, levemente, com as costas da faca na taça de cristal, a pedir atenção:

– Queridos familiares e amigos, eu os chamei aqui por uma razão…

Antes que pudesse terminar sua frase, os sussurros começaram. A mesa, não muito grande se comparada ao ambiente, acolhia confortavelmente os 18 convidados e sua anfitriã, de repente pareceu pequena e incômoda. O que a prima teria a dizer? Por que juntara a todos nós, assim, num dia qualquer? Seria doença? Ela vai morrer???

Berta interrompeu os pensamentos e seus burburinhos para acabar com as especulações:

– Nosso jantar será o último, nesta casa. A penúria enfim me alcançou. Ao servir este frango assado e caçarola para a sobremesa, comunico a todos: o cascalho acabou!

___xxx___
Este singelo conto é uma resposta ao desafio feito pela Maria Rachel, através da deliciosa Terapia da Palavra. Espero que gostem.

Imagem destacada: Freepik

Aquele abraço

O melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.

Essa frase não é minha (claro!): é do Jota Quest. Mas tenho certeza de que ela já foi dita (ou pensada) centenas de milhares de vezes por muitas pessoas que nem conhecem a música. Porque é a mais pura verdade: o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço.

Depois de fazer a malas e me mudar para Portugal, meus abraços ficaram mais escassos.
(nos últimos cinco meses…)

  • dos meus pais, que ficaram por aqui de fevereiro até meados de março
  • do meu filhote, que tem um dos mais gostosos ever!
  • de uma amiga portuguesa muito querida, que parece ter um radar especial para abraços necessários

A dose de carinho que recebo diariamente – seja do filhote, da família ou de amigos – me nutre o suficiente e não me sinto carente*, mesmo quando a saudade aperta (e isso acontece muitas vezes!).

Até que… ela** chegou e me deu o abraço mais especial de todos. Um abraço porto-seguro, caloroso, reconfortante e muito demorado! <3 Era como se eu abraçasse, ao mesmo tempo, todos os meus queridos que estão longe (meio SENSE8 isso, né?). No entanto, éramos só nós duas e a nossa amizade.

Aquele abraço demorado…

Estar longe das pessoas que amo (família e amigos, é com vocês que estou falando!) me fez ver o quanto elas são especiais (muito!). É o velho cliché: a gente só dá valor quando perde. Não que eu tenha negligenciado meus familiares e amigos –  acredito que eu tenha, por várias vezes, declarado meu amor por eles, apesar de não ser uma amiga muito presente…

Os abraços de oi-como-vai, até-logo, estou-morrendo-de-saudade, agora, com a distância, me parecem frouxos e escorregadios, automáticos e até rapidinhos demais… como se a certeza de um próximo encontro diluísse a necessidade do aperto, do aconchego.

Esse “pouco-caso” tão comum nos dias corridos, hoje me soa como tolice: eu queria ter feito diferente!

Você pode agir de outra maneira, de modo que isso que digo seja verdade apenas para mim. Mas, talvez e só talvez, você também esteja adiando aquele abraço apertado e beeeeemmmm demorado.

(Quando acabei de escrever esse parágrafo, me lembrei de um vídeo e corri pra achá-lo no YouTube!)

A Erika** é uma amiga de longa data (uns quatro ou cinco anos), mas que só se tornou bem próxima meses antes d’eu viajar. A trabalho, passou uns dias por Lisboa e tivemos a chance de nos encontrarmos por algumas horas. Foi um domingo bem especial! Obrigada, querida! E volte logo!

  • Mentira: tem dias que fico muito, muito carente! Faz parte e tô aprendendo a lidar com isso.

E aí, já deu um abraço demorado hoje?

p.s.: Esse não é um post patrocinado pela Panvel.

 

É, eu mudei – de várias maneiras

Quando contei a algumas pessoas que me mudaria para Portugal em 2017, depois da surpresa, o comentário era unânime: você precisa escrever um blog!

Mas eu já tenho um blog, pensava…

Adiei a decisão de fazer um blog sobre esta mudança e, mesmo agora, quase 3 meses a morar fora, ainda não sei como fazê-lo. Deixo de lado o biattrix.com.br e crio algo novo? Abro uma nova sessão para falar exclusivamente da mudança? Dou dicas d’o que e do como fazer?

Há na blogosfera muitos e muitos sítios assim – dedicados a responder as dúvidas de quem resolve se mudar. Não acho que eu falaria melhor do que eles. Neste caso, vou fazer uma lista daqueles que me ajudaram na hora das minhas pesquisas e me dedicarei a outro aspecto da migração: o estado de espírito. Mas vou falar do que sinto, afinal, não teria como rotular outras experiências. E talvez, ao abordar meus humores, você se identifique…

Antes da mudança

A decisão de me mudar, de mala e cuia, não foi tão difícil ou elaborada… depois de um papo com uma grande amiga que havia passado alguns meses em terras lusitanas, a chama da mudança se acendeu em mim. Praticamente um interruptor on/off, de tão rápido que aconteceu.

A parte mais complicada, que ainda preciso de muita elaboração, meditação e respiração (para não surtar!) foi – ou melhor: é!!! – ficar longe dos meus pais. (Estarei longe e não verei as novas rugas que surgirão…) Mas, como ótimos pais, eles (mais uma vez!) me empurraram do ninho da minha zona de conforto e me deram todo o apoio que eu poderia receber! (Obrigada, pais!).

Deixar os amigos também não foi fácil! Não quis despedidas, e escrevo com lágrimas nos olhos: como eles me fazem falta!!! Mas, na época (parece há tanto tempo!), eu sentia que a distância me aproximaria ainda mais dos verdadeiros. Vai parecer piegas, mas o amor é assim: apenas três meses longe do Brasil, e meu coração transborda por todos eles! Eu estava certa, afinal! (sou intensa, me deixa!)

Viajar leve

Na minha cabeça, a mudança não seria por meses – mas por anos: como decidi estudar, seriam três anos de licenciatura, dois de mestrado, quatro de doutoramento… sim, porque quero ficar cabeçuda! Com isso, o que fazer com todas as minhas coisas?!

Desmontar meu apartamento, construído com amor e cacarecos por longos oito anos, não seria uma tarefa simples. Eu era apegada as MINHAS coisas, a minha casa! Foram muitos papos, alguns aos prantos, com dona Heloísa, minha musa-mor da Simplicidade. (Gratidão, gata, por aguentar meus surtos).

Alugar meu apartamento meses antes do que eu planejava me ajudou muito a me desapegar – afinal, eu não tinha muito tempo para pensar no assunto. Vendi, dei e doei muita coisa – praticamente 75% do que eu tinha. Tudo aquilo que me restou encheu umas seis caixas médias (80x50X30cm) que estão guardadas com carinho até que eu resolva o que fazer (trazer, doar ou guardar?).

É claro que não foi fácil! Mas a pergunta que ficou é: pra que eu tinha tudo aquilo?

Viajar leve, mas nem tanto… Toda a minha tralha!

Cheguei, e agora?

Assim que cheguei, respirei. Estou em Portugal! Era a hora de acertar os pormenores da minha estadia. Só estando aqui é que pude dimensionar a minha mudança.

O primeiro apartamento que aluguei foi um charmoso rés de chão em Quinta do Anjo, em Palmela, Setúbal. Totalmente mobiliado e equipado, eu não precisei me preocupar com nada, a não ser chegar e me sentir em casa. Uma quinta charmosa e distante de tudo, onde o transporte público – os autocarros – só passava de hora em hora.

Minha primeira vizinhança…

Outra providência importantíssima foi consultar a Casa do Brasil, uma instituição que acolhe e orienta os migrantes brasileiros. Lá, fui muito bem recebida e a recomendo para todos que queiram vir passar uns tempos em Portugal. Nós entramos em Portugal com isenção de visto e assim ficamos por até três meses. Depois disso, é preciso solicitar o visto por até mais dois períodos de três meses cada, totalizando, então, nove meses como turistas. Há outros tipos de vistos e você pode se informar melhor no Consulado Português do Rio de Janeiro (ou aqui, onde você acha todos os Consulados de Portugal no Brasil).

Entendendo melhor a dinâmica da cidade, descobri logo que precisaria sair de Lisboa para conseguir me manter com o meu budget. Os aluguéis estão caríssimos em Lisboa e achar um lugar bacana não é tarefa fácil. Como eu tinha pressa (meus pais vieram me ajudar com a burocracia e iriam embora em um mês e meio), precisava achar onde morar, optei por atravessar o Tejo rumo a Seixal (dica de um taxista que nos atendeu em Quinta do Anjo).

Na margem sul do Tejo, Seixal é um subúrbio tranquilo e charmoso (eu, pelo menos, me encantei!). Aluguei um T2 confortável, no quarto andar de um prédio sem elevador – o que é bem comum por aqui. A localização não poderia ser melhor: tudo ao meu alcance, da farmácia ao mercado, dos autocarros ao barco. A escola do meu filho também é relativamente perto – uma caminhada leve de 20 minutos.

Agora, é explorar os arredores e dar rotina à vida.

 

 

 

 

Já estou de saco cheio!

Quando pensei em vestir um “uniforme“, a primeira pessoa com quem conversei foi a consultora de estilo Carla San. É claro que ela pediu para pensar um pouco, porque ninguém em sã consciência, ainda mais trabalhando com estilo, aceitaria vestir um uniforme por seis longos meses, não sem pensar muito a respeito.

Armário reduzido
13 peças básicas, alguns acessórios e umas quatro ou cinco peças para ficar em casa. Armário reduzido até setembro.

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Só que o meu momento era aquele. Mudar radicalmente era imperativo. Eu precisava fazer algo muito diferente do meu normal. E o meu normal até então era o animal print, as cores misturadas em estampas gigantes, os étnicos, as listras, os poás e os florais.

Vestir só preto tem me deixado entediada. Talvez, com o friozinho chegando, as cores dos lenços me animem um pouco. Talvez… Pensei que faria mais selfies, com os looks do dia. Todavia, a motivação para tal nem deu um segundo suspiro: morreu em frente ao espelho, ao constatar a monotonia do reflexo.

 

Mas por que raios eu decidi usar um uniforme?

Não sei. Quer dizer, eu imaginava que seria muito mais fácil me arrumar, que o armário quase vazio (eram mais de 60 cabides!) me traria uma certa paz. E trouxe. Só que ela não é a minha praia! Eu gosto do caos (não me lembrava disso!).

Roupa é statement.

Roupa é a afirmação da sua personalidade, uma declaração de quem é você na fila do pão. Mesmo que você opte por não declarar nada. Não tem como fugir.

Ao me privar das minhas afirmações inconscientes (nunca pensei tão abertamente em quais imagens gostaria de passar com o meu vestir),  eu tenho pensando mais em quem eu sou. Também tenho me arrumado em 5 minutos, já que não tenho como escolher algo diferente do combo blusa preta + calça jeans (ou calça preta). Prestar mais atenção às escolhas das outras pessoas tem sido meu passatempo favorito. E quase não vejo vitrine, coisa que fazia com os olhos lânguidos de desejo – perdi o tesão. Vez ou outra me pego divagando sobre que guarda-roupa terei ao terminar o projeto… calça de alfaiataria, corte reto, com t-shirt branca e algumas saias midi estampadas? Algo mais clássico-retrô com algumas peças coringa, ou assumir de vez meu lado over a la Iris Apfel?

É engraçado você se privar de algo por escolha própria – não é um fardo, é uma experiência interessante de auto-conhecimento. Algo como um detox, uma purificação quase religiosa. Eu, aquela extravagante, agora visto algo comedido. Posso até reclamar de tédio, mas me sinto leve.

Céus! Sou uma acumuladora!

Esvaziar o armário, trocando todas aquelas roupas por 13 peças quase-idênticas já mudou muito a minha cabeça. E o engraçado foi que não percebi logo de cara! (eu achava que me conhecia e me percebia muito! Aham!) Não! Não foi assim… Eu comecei a sentir um desconforto muito grande com as “coisas” nos armários. Todo armário que abro tem MUITA COISA. Algumas não são usadas há anos!!!

Para!

– Tenho coisas que não uso há anos.

Você percebe algo estranho nesta afirmação? Bem, agora eu percebo. E fico muito assustada com isso. Como posso ter coisas entulhadas nos armários que nem mesmo uso? Estão ali nem para figuração, já que ninguém que vem ao meu apartamento as admira, como um objeto colecionável. Afinal, as benditas estão guardadas há anos no fundo de um armário.

Hoje, deu a louca na Bia! Aliás, eu sou a louca das garrafas, sabia? Não? Pois sou: amo garrafas e as guardo, querendo fazer algo diferente com elas. Já pensei em fazer luminárias, mas deixei pra depois, já que não descobri quem poderia furá-las para mim. (Até pesquisei no google como cortar e furar garrafas, mas achei impossível fazer isso no meu apertamento sem área de serviço decente!).

Isto posto, posso continuar: hoje, deu a louca na Bia. Olhei todas as garrafas guardadas em todos os cantos da casa e fiquei muito aflita. Eu não vou fazer nada com elas. Não agora. E não tem porquê guardá-las. Se eu levar a ideia adiante, posso conseguir outras garrafas, sem custo algum, em vários lugares. Então, as minhas se despedem hoje, e vão para a reciclagem na Light, para diminuírem minha conta de energia elétrica.

.garrafas

 

*alívio*

Sabe que dá um prazerzinho se livrar de algumas coisas?! Fato!

Garrafas para serem descartadas

 

>> ainda há muito o que ir embora…

Feature image credit: killkudzu via Visual Hunt / CC BY-NC

Muda tudo, vai…

A sua vida está tranquila, mas nada favorável.
O que você faz?
MUDA!

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Essa semana, começo a encaixotar os pré-conceitos, os medos, os “e se…”.

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Ainda não sei o que fazer com eles porque, né, são tipo lixo tóxico! Se eu jogá-los em qualquer lixão, corro o risco de aumentar o surto de histeria coletiva que ronda por aí.

Guardá-los num depósito? Sei não… o custo é muito alto para pouco valor que eles têm. Diferente de roupa que, se não nos servem mais, doamos, esses itens não têm serventia a ninguém mais (nem deveriam ter!). Ainda tenho um certo receio de baixar a Pandora em mim: vai que abro a porra da caixa?

Acho que o ideal seria um ritual pagão, onde fosse possível queimá-los todos, me purificando com fogo… (embora tenha medo de defumar minha pequena casa!!!)

https://unsplash.com/christianallard
unsplash.com/christianallard

 

#Aguardemos

Até aonde você vai para se encontrar?

Vou repetir a pergunta: até aonde você vai para se encontrar? Mas se encontrar mesmo – de verdade – na essência? Conhecer seus limites, entender seus desejos e frustrações…

Acredito que eu estava anestesiada pela rotina. Você sabe, essa sequência de acordar, cuidar da casa, do filho, do trabalho, se divertir (quando dá!), dormir e acordar no dia seguinte para fazer tudo – quase – igual.

Os projetos estava indo para a gaveta. No início, eles se debatiam e se rebelavam, mas com o passar do tempo nem isso faziam. Era só aquele olhar de soslaio e tchum, mergulhavam de cabeça na gaveta.

Eu não estava feliz. Aliás, não estava feliz há anos. Foi aí que me descobri uma ótima atriz. Sim! Porque eu até me enganei direitinho por vários anos (vou ser mais precisa: foram uns 3 ou 4). Tá bom, não estava sempre infeliz. Até chegar 2014 e cair a ficha: eu estava com depressão. E quando a ficha caiu, o seu peso me levou pro fundo do poço. Hoje, vejo que a tal mola no fundo do poço assume várias formas – no meu caso foi trocar o tratamento tradicional da dupla psiquiatra+psicólogo e apostar em uma neurologista, a Dra. Maria Elisa, com apoio da psicóloga Ananda Salerno. Duas mulheres fundamentais na minha recuperação – serei sempre grata pelo suporte!

Foi eu sair de uma crise para cair em outra! Se, por um lado, a crise político-econômica está reduzindo minha atuação, está também ampliando meus horizontes. Mas o que isso tem a ver com se conhecer de verdade?

Acontece, meu caro, que se a doença me ensinou a buscar as respostas para os meus problemas em mim mesma, esta crise político-econômica reforça tal aprendizado. Foi preciso mergulhar em mim, conhecer meus oceanos e suas correntes, mapear sua vastidão, catalogar a vida que existe nos arrecifes, me descobrir afinal.

caravela
foto: unsplash

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“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” – Carl Jung

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Se eu continuar na metáfora, posso dizer que cem tanques de oxigênio não foram (ou são!) suficientes! Por muitas vezes me senti perdida, desorientada. E cada vez mais fascinada. Só agora sei que essa sensação de desconforto é peculiar do crescimento (seja ele físico, espiritual, intelectual..).

No crescimento do corpo do animal (a lagosta), a carapaça deixa de lhe servir (devido á rigidez do exoesqueleto) e começando a ficar “apertada”, o animal liberta-se da carapaça num curto espaço de tempo, sintetizando em seguida um novo exoesqueleto, o que equivale a dizer que durante esse período o corpo fica “mole” e desprotegido, ficando vulneráveis aos inimigos e predadores. – Por Rui Motta Freitas (6/99) Cadeira de Fisiologia Aquática.

Interpretei errado os sinais da vida e acreditei que precisava deixar para trás meu lado vulnerável, sendo só forte. É claro que deu um bug no sistema! A inteireza do ser é sua maior expressão, um tesouro de valor inestimável!

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Odes de Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933
Fernando Pessoa

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Eu não me lembro quando escrevi a frase: “posso ser quem eu quiser, e posso mudar de ideia”. Hoje, ela faz ainda mais sentido.

Organizando o armário – 1ª fase

Eram 50 cabides, alguns sustentavam até duas peças, mais 3 gavetas e uma prateleira. Tinha blusa pendurada que eu nunca usei. Saias, camisetas, vestidos de todas as cores e modelos, de todo tipo de tecido. Alguns recém comprados, outros… com 20, 25 anos de história – estes há tempos deixaram de ser roupa e ganharam o status de peça de museu!

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Armario da bia antes do projeto

 

.Para começar o projeto, esse experimento maluco, tinha que arrumar o armário. E lá fui eu fazer esse trabalho glamuroso #SQN. Fiz algumas fotos para documentar o processo, é claro! E vários snaps (segue lá: biattrix). Gastei toda a manhã, mas organizei tudo. Pilhas de roupas na cama, aproveitei para separar para doação o que não usaria mais.

roupas para organizar guardar e doar
Roupas para guardar na mala e para doar.

 

roupas que serao guardadas por 6 meses
A mala! Aí não tem só roupa: tem história! Como é difícil me desapegar!

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E aí me dei conta de que não separei, no projeto, roupas para ficar em casa!

Ihhh, já furei tudo, né?
(Que nada, não tô me levando tão a sério assim!)

Entonces, o armário agora tem 13 peças para o projeto, sendo:

(Gente, essa rouparia toda é para reunião com clientes, levar e buscar o João na escola, café com as amigas, aulas, workshops, palestras (as minhas e as que assisto!), supermercado, cabeleireiro, médico, dentista, cinema, barzinho, festinha, reuniãozinha, balada… qualquer coisa que me tire de casa!)

  • 5 camisetas pretas idênticas.
  • 2 calças pretas iguais
  • 1 blue jeans
  • 1 saia lápis preta
  • 2 saias de malha listradas (amo listras!)
  • 1 bermuda blue jeans
  • 1 vestido de festa preto

armario da bia durante o projeto
As 13 peças básicas, pretas, simples.

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Para vestir somente em casa, separei roupinhas confortáveis e seguindo, mais ou menos, a história do projeto: quase tudo preto! Mas tem duas peças estampadas: as mais sóbrias. (acreditem, sou capaz de misturar estampas nada a ver e, na maioria das vezes, sou muito, muito colorida!).

  • 1 vestido preto
  • 4 blusas (preta/off-white)
  • 1 bermuda de malha
  • 3 leggings (preto/ poá/ liberty)
  • 3 casacos moletom (aqui em casa é gelado no inverno, mesmo que na rua esteja um clima ameno)

A primeira coisa que pensei foi: putz! estou mudando tudo, já que agora tenho 25 peças no armário!
Relaxa, mesmo assim, mudei muito meu padrão – tá valendo!

Eu disse que os acessórios estava liberados, né? Mas aí eu me dou conta de que tenho MUITOS paninhos (leia-se: echarpes, lenços, pashiminas). O que fazer? Ao longo do projeto, vou reduzir isso também!

Quanto aos sapatos… tô me percebendo uma acumuladora!!! Ou tenho síndrome de centopeia! Mas vou deixar o inventário para depois. Hoje é aniversário do João (meu filhote faz 10 anos!) e preciso me arrumar para o jantar. Com que roupa eu vou, hein?

 

 

Que ideia maluca!

A ideia veio no banho. E se? Como vou me sentir? Será que isso pode me mudar?

Não quis procurar projetos parecidos para não me contaminar. Não quero saber o que outras pessoas viveram ao mergulharem de cabeça numa ideia tão maluca quanto a minha.

Afinal, qual é a ideia, Bia?! 

eu mais 13 pecasA ideia maluca que tive é, durante 6 meses, usar apenas 13 peças de roupa. Mas não é um armário cápsula, com peças curinga, clássicas, ou tendências… minha ideia está mais para um uniforme: cinco camisetas iguais, duas calças idênticas, um jeans, três saias, uma bermuda e um vestido de festa. Tudo (mentira! Quase tudo…) preto. Basicão mesmo.

Vou esvaziar meu armário e guardar todas as roupas em malas, longe das vistas (assim deve ser mais fácil, né? Depois penso o que farei com elas…). Ainda estou pensando se limito os sapatos… Por enquanto, não consigo nem pensar em reduzir os acessórios! Sou louca por eles, amo todos que tenho e penso que nunca são demais. Nesse item, incluo meus “paninhos”: pashiminas, lenços, echarpes… (é muito amor, gente!)

Então, tá: é isso. Começo oficialmente amanhã, de 15 de março e vou até 15 de setembro, a data que marquei para finalizar o experimento. Ou não, vai saber!