Cuidado: P.O.I.S.O.N.


Palavras bonitas, muitas vezes, são venenos disfarçados.

Ontem, ouvi um “Eu te amo”
O gosto amargo lembrava amêndoas.

Cianureto, agora eu sei.

Desceu queimando, goela abaixo.
Aniquilando sonhos possíveis.

Carete de amor,
acreditei naquelas palavras…
Íons CN mataram minha realidade desenhada.

Eu não sou reativa

Certa vez, acompanhava um amigo à banca de jornal. Meu amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente mas, como retorno, recebeu um tratamento rude e grosseiro. Pegando o jornal que foi atirado em sua direção, meu amigo sorriu polidamente e desejou um bom fim de semana ao jornaleiro. Quando descemos pela rua, perguntei:

– Ele sempre te trata com tanta grosseria?
– Sim, infelizmente é sempre assim.
– E você é sempre tão polido e amigável com ele?
– Sim, sou.
– Por que você é tão educado, já que ele é tão inamistoso com você?
– Porque não quero que ele decida como eu devo agir.

[Não é o ambiente que nos transforma, mas nós que transformamos o ambiente].

Adaptação do original de John Powell.

Atalhos

Estava pensando em como construir um atalho… aí, entre muitos textos que leio todos os dias, descobri esse aí. Nem preciso dizer que serviu feito luva.

Atalhos

Quanto tempo a gente perde na vida? Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros. Depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, aí mais tarde demora pra entender certas coisas, demora pra dar o braço a torcer. Viramos adolescentes teimosos e dramáticos. Levamos um século para aceitar o fim de uma relação, e outro século para abrir a guarda para um novo amor, e já adultos demoramos para dizer a alguém o que sentimos, demoramos para perdoar um amigo, demoramos para tomar uma decisão. Até que um dia a gente faz aniversário. 37 anos. Ou 41. Talvez 48. Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto. E a gente descobre que o tempo não pode continuar sendo desperdiçado. Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado no segundo tempo e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola pro goleiro ou fazer tabelas desnecessárias. Que esbanjamento. Não falta muito pro jogo acabar. É preciso encontrar logo o caminho do gol.

Sem muita frescura, sem muito desgaste, sem muito discurso. Tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade, é ir direto ao assunto. Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada, pra todo o resto é melhor atalhar. E isso a gente só alcança com alguma vivência e maturidade.

Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando, não esperam sentados, não ficam dando voltas e voltas, não necessitam percorrer todos os estágios. Queimam etapas. Não desperdiçam mais nada.

Uma pessoa é sempre bruta com você? Não é obrigatório conviver com ela.

O cara está enrolando muito? Beije-o primeiro.

A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera.

Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para sorver um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação. Pra enrolação, atalho.

Martha Medeiros escreveu isso em algum lugar do passado.

Mudei.

Eu já estava acostumada com os velhos caminhos. [Todo dia ela faz tudo sempre igual…] Eu sabia das cores e dos cheiros e das sombras daquelas ruas que eu sempre atravessava. Conhecia as folhas nas calçadas, as janelas abertas, as portarias da avenida. Já conseguia prever os futuros vincos nos rostos que cruzavam meu caminho sem dizer bom-dia. Há tempos era tudo igual. Da mesma maneira eu seguia a vida, ignorava alguns desvios, inventava outros. Até ontem.

Dormi diferente. Acordei em um novo mundo, posso dizer. As caixas ainda estão lá. Mas a alma…

Hoje pela manhã, os barulhos eram outros. Até a luz era diferente. Sei que é um momento de transição. Muita coisa vai mudar ainda mais. Com certeza já posso dizer: estou ansiosa pelo que vem por aí.

Hoje pela manhã, os poucos segundos que me separavam do outro lado da calçada passaram em horas. Na cabeça, tantos pensamentos… meu ritmo é outro. Assim como as paisagens.

Hoje pela manhã, meu futuro começou novamente.

O processo

Já estava cansada daquela sucessão de estados. Mudança após mudança, sem que nada saísse do lugar desde então. No começo, verdades incompletas. A melhor fotografia. Depois, tudo o que esperava ser mentira, a mais absoluta realidade. Nua. Crua. Ali, na cara. E o quadro se completava. Era desnecessário qualquer gerúndio. Ela esperava, paciente, pelo reinício do tal processo.

O método. A técnica. O como as coisas são feitas.

Era assim. E ponto.

Ela duvidava deste caminhar. Haveria outro jeito. Algo mais reto. Mais limpo. Mais direto. Idealizou um mundo onde estava abolido os jogos. As nuances. Os meandros. Era, pura e simplesmente, o seu novo jeito. Isto ou aquilo. Sim ou não. No seu mundo não haveria jamais um talvez. E assim, a vida perdeu a cor. Esmaecida de calor, ela enfim entendeu dos desvios, dos rios, dos amores.

De que cor?

Qual a cor da felicidade?
Pra mim, é de todas as cores…
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Príncipe Sapo

A onda Beija-Sapo baixou aqui na agência. A diretora de arte trouxe de Paris [très chic] um sapinho para as moçoilas beijarem [todas as quintas e sextas do mês]. Quem sabe assim o sapo vira príncipe e a gente desencalha?

A brincadeira já tem até versinho – aí, já viu, né? Rapidinho vai virar ritual. Eu que não sou boba nem nada, já estou fiel. Mas não quero nem príncipe, nem sapo. Se vier um rapaz alto, forte, tatuado e careca, já tô feliz!

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Eu fiz as fotitas do Príncipe-Sapo.
Mas não vou guardar na carteira, que já é demais!

2008

Nada de por quê? quem sabe, talvez um dia.
2008 é pra ser AGORA. Now. Djá!
A pergunta é: por que não? E se a resposta só tiver um se não. Vai fundo. Porque é melhor aprender, acertar e até errar – FAZENDO – do que passar o resto da vida se torturando por não ter tentado.

Carta aberta ao Papai Noel

Papai Noel, este é o TOP 10 das coisinhas que quero de presente. Não é uma lista fechada: você pode escolher outros presentes, exercer sua criatividade, me trazer várias surpresas… só não vale viajar na maionese.

Livros

1. The Beatles – A Biografia, Bob Spitz. Ed.Larousse

2. Vale Tudo – Tim Maia, Nelson Motta. Ed. Objetiva.

3. Einstein – Sua Vida, Seu Universo, Walter Isaacson. Ed.

4. 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer Lisma Ediciones.

5. Série Arthur (Volumes 1 e 2), Artur e a Guerra dos Dois Mundos; Arthur e a Vingança de Maltazard; Arthur e os Minimoys; Arthur e a Cidade Proibida. Todos de Luc Besson. Ed.Martins Fontes.

6. O Anjo Pornográfico – A Vida de Nelson Rodrigues, de Ruy Castro. Ed.Companhia das Letras. E todos os títulos do Nelson editados pela Nova Fronteira, Ed.Agir e Ediouro.

7. Jogando Por Pizza, John Grisham. Ed.Rocco.

8. Historia Universal da Infâmia; O Livro dos Seres Imaginários; Manual de Zoologia Fantástica. Todos de Jorge Luiz Borges.

9. Mario Vargas Llosa (já li Travessuras da Menina Má!)

10. Gabriel Garcia Marques (já li Cem Anos de Solidão!)

CDs

1. Garlands, Cocteau Twins – (Importado)

2. Country Side of Elvis (Duplo) Elvis Presley (Importado)

3. Live at the Blue Note, Duke Ellington (Importado)

4. Box Café Del Mar 1980-2005: 25th Anniversary (3CDs) (importado)

5. The Beatles – 1962 – 1966

6. The Beatles – 1967 – 1970

7. Momento (Digipack), Bebel Gilberto

8. Samba Meu. Maria Rita.

9. Sim. Vanessa da Mata.

10. Queen Collection

Roupitchas e Acessórios

(dessas marcas, gosto de quase tudo)

1. Farm

2. Xsite

3. New Order

4. Via Mia

5. Leloo

6. Ecletic

7. Redley

8. L’Occitane

9. Zara

10. Sementeira

Pode deixar que vou caprichar na ceia de Natal…

Vou preparar um verdadeiro banquete pra você!

Gérberas


Das flores, amo o perfume e o toque aveludado das pétalas. A transformação do botão me intriga… e o tempo – quase mágico – do desabrochar tem muito a me ensinar.

Gosto das géberas, as minhas preferidas…

Saudade


Estou com saudade do cheiro de café,
do murmirinho de gente,
dos papos furados nas calçadas,
nos fins das tardes de sábado…

Tenho saudade de gente.

A cabeça não pára…

Não é falta de assunto…
é tempo curto pra tanta novidade.

Ao que tudo indica, 2008 vai fazer uma (R) evolução na minha vida.
E aquele castelo que contruí vai por terra. Melhor assim.
Novas bases pra crescer além do imaginado.

Vem coisa boa por aí.

Desejo

“Eu não quero a faca e o queijo,

eu quero a fome.”*

Adélia Prado

Como uma frase tão curta pode causar um impacto tão profundo? Desde que a li, esta afirmação ecoa na minha cabeça oca. A voz que só eu conheço constrói – nas entrelinhas – um mundo inteirinho. As respostas. Sei que lá estão. Mas só ouço o eco.

Eu quero a fome…

quero a fome…

a fome…

fome.

* Esta veio lá do Terapia da Palavra, da amigagêmea Rachel… e ainda tem muito mais.

 

Curioso

Dezembro está aí, batendo a nossa porta. Fim de ano traz uma sensação de revisão. Pelo menos pra mim. Tenho a necessidade de rever, limpar e renovar conceitos, roupas no armário, livros na estante, papéis do bagunçado arquivo que mantenho… até amizades.
Em dezembro eu faço um balanço da vida. Passo os olhos em tudo o que aconteceu, repenso os erros, pra extrair o máximo de aprendizado da coisa. [Persistir no erro é algo que não posso mais fazer]. Dezembro também é tempo de planejar novas metas. É essa vocação de fechar o ciclo que o mês de dezembro tem, sabe? Então…

Eu quero cultivar aquele olhar curioso de quando era criança!
E tenho toda inspiração de que preciso logo ali, pertinho, na minha casa… João é uma fonte viva que me faz renascer todos os dias.

Tá na hora de fazer a listinha das metas,
o meu To Do List pra 2008:

Quero cuidar mais de mim – da saúde, do coração, do psicológico.
Quero estar mais forte e segura. E mais magra.
Quero passar mais tempo com o meu filhote.
Quero mais horas de “qualidade” com a minha família.
Quero cuidar da minha casa. Construir o meu lar, doce lar.
Quero uma grande paixão pra sacudir o ano.
Quero estar mais próxima dos amigos.
Quero ser mais amiga dos meus amigos.
Quero fazer novos amigos.
Quero outras fontes de renda.
Quero montar o “tal” clube. [em breve eu conto.]
Quero colocar meu workshop pra funcionar! Ou melhor: dar movimento à criatividade!
Quero viajar mais.
Quero rir mais vezes ao dia.
Quero meditar.
Quero fazer ginástica. Cansei de ser sedentária.
Quero sair mais. Andar mais. [preciso sair da toca!]
…

[a lista ainda vai crescer… e muito!]

E o seu To Do List pro ano novo, já fez???

Skinny Bitch

D.I.E.T.A. – ô palavrinha!

Durante a minha adolescência, isso nunca foi um problema. Eu era magra. Aí comecei a ganhar uns quilinhos. E a balança virou uma inimiga declarada. As roupas mostravam a sanfona que eu tinha me tornado.
Assim foram os anos da minha juventude – áureos tempos! Sempre disse que aos 30 anos eu não deveria explicações pra ninguém. Bem como não mais importaria se gorda ou magra. Aos 30, me ocuparia da saúde. Física e mental. Incrível. Mas, aos 30, comecei a emagrecer. Sem dietas, dramas ou exageros. Do manequim 44, caí pro 36. Entrei em roupas que jamais imaginei usar. E adorei. Fiz as pazes com a balança, que passei a consultar semanalmente. Era uma uma lembrança da vitória que há tempos desejava.
João mudou a minha vida – de uma maneira boa, outra nem tanto. Com a felicidade de ser mãe, veio também o sobrepeso. Exibi minha barriga com tanto orgulho, que hoje ela não quer me largar!!!
Uma nova consciência é preciso. Radicalizar sim. Mas sem perder o foco. Saúde física e mental, num corpitcho magrelo, gostoso, com curvas e carninhas suculentas pra apertar. Quem gosta de osso é cachorro. E de cachorra, basta eu. I’ll be the skinny bitch. [num bom sentido, se é que vocês me entendem].

Minhas fantasias

Fantasia é o que não me falta. Sejam as megalomaníacas [ganhar sozinha na mega sena] ou as de amor romântico [fazer amor sob as estrelas, em um iate em alto mar], tenho fantasias ilimitadas pra todos os gostos, ocasiões, companhias, níveis de exposição e constrangimento.

Antes, eu precisava fechar os olhos e me deixar levar – ficava horas a criar uma cena perfeita, digna de ser vivida. Imaginava aromas, cores, texturas, temperatura… Com o passar dos anos, evoluí. Agora basta dar uma pequenina corda. Já saio por aí a fantasiar as mais insólitas cenas. Ou algumas cotidianas-mulherices.

  • Fantasio que o entregador de pizza será lindo e, ao abrir a porta, ele ficará arrebatado pelos meus lindos olhos verdes. [quando o coitado chega, mal levanto os olhos – não sei se por vergonha do que imaginei, ou medo de ser verdade].
  • Fantasio que ele vai chegar logo e declarar que não pode mais viver sem mim… que, aliás, nem sabe como viveu tanto tempo longe.
  • Fantasio chegar ao trabalho, entrar decidida na sala do meu chefe e pedir demissão. Esta mesma fantasia tem um discurso inflamado dele, do chefe!, dizendo que isso é impossível porque sou a alma da agência! E termina com uma bela oferta de aumento.
  • Fantasio dar de cara com um bilhete premiado da loteria, ou que sonho com os seis números que me trarão meus muitos primeiros milhões. Ou ainda que acho uma mala de grife abarrotada de EUROS!!!
  • Fantasio ser uma diva desportiva, que salta de asa delta, pára-quedas, faz kite, anda de skate, é descolada e ainda viaja pelo mundo inteiro atrás da aventura mais radical da vida.
  • Fantasio comer quilos de palha italiana das japonesinhas da feira de Ipanema e não engordar um grama se quer. Ao contrário, secar e ficar com a barriga lisinha que sempre imagino ter.

Por falar nisso…

  • Fantasio emagrecer os quilinhos que ganhei na gravidez sem alterar em nada minha rotina. Tipo secar toda a gordurinha com a toalha de banho mega-ultra-blaster que tenho lá em casa.
  • Fantasio ser uma cozinheira de mão-cheia, daquelas Cordon Bleu, ou seguidoras de Ferran Adrià, sem nunca ter freqüentado qualquer escola, curso ou cozinha.
  • Fantasio ser escritora, quando na verdade, nem redatora me considero.

Bem, estas são as publicáveis. Enfim… Ultimamente, uso fantasias para me divertir. O dia fica mais leve, o humor mais agridoce, os olhos mais brilhantes. E tenho transformado muitas delas em realidade. [é nesse momento que elas ficam ainda melhores].

E as suas… quais são as suas fantasias???

Rascunho


Estava tudo ali. Quase no seu devido lugar. Quase tudo à mão. Apesar de entulhado, o espaço tinha um sentido. Aquela existência havia sido planejada em detalhes. Cada vaso, cada pote. Cada tinta a colorir o preto-e-branco-existir. Os livros não eram detalhes. Ela tinha passado o dedo em cada uma daquelas milhares de páginas. Leu linha por linha. Abstraiu conceitos. Formulou teorias. E as guardou na estante.

Afastada de tudo, como uma terceira pessoa, observava.
Procurando sentido, investigando detalhes despercebidos.
Afinal, toda história tem uma moral.

*inspirado na imagem que veio daqui. *

O preconceito e o profissional acima dos 40 anos

O valor da experiência de profissionais de mais idade não é aproveitado em empresas que têm como norma não contratar acima de quarenta anos.

Por Zeca Martins, Webinsider

A mais brilhante definição de preconceito de que já soube veio-me de Voltaire, em seu Dicionário Filosófico: “preconceito é uma opinião sem julgamento”, ou seja, adquirimos uma opinião qualquer, não verificamos sua razão de ser e passamos a acreditar naquilo, simplesmente.

Voltaire disse isto por volta de 1760. Passados mais uns cento e oitenta anos, em meados do século vinte Einstein lastimou que “hoje, infelizmente, é mais fácil partir um átomo ao meio do que quebrar um preconceito”. Pois, somando-se as coisas, conclui-se que preconceito deve realmente ser algo indestrutível, ou perto disso.

Tão indestrutível, que o preconceito dos nazistas contra os judeus ainda perdura no coração de muita gente, mesmo após tanta propaganda contrária. E dos judeus contra os árabes, e dos árabes contra os judeus, e dos brancos contra os negros, e dos negros contra os brancos, e dos que são contra os mulatos, contra os cafusos, os mamelucos, os letrados, os iletrados, as mulheres, os homens, os advogados, os políticos, os publicitários, os jornalistas, os nordestinos, os açougueiros, os torneiros-mecânicos (sim, porque, sem dúvida, haverá alguém cultivando preconceitos contra açougueiros e torneiros-mecânicos), os velhos, as crianças, os gays e o escambau. Existe preconceito até contra o escambau.

Assim como não tem fronteiras e nem escolhe raça, faixa etária ou sexo, o preconceito também não escolhe porta-vozes ou causas. Ele existe dentro de todos nós, tem diferentes intensidades. Não tem função nem propósito. Apenas existe, desde que o ambiente seja favorável ao desenvolvimento de um raciocínio qualquer, um sofisma destes capazes de fazer-nos acreditar no ilógico. Algo como a prestidigitação. Nada além de opiniões sem julgamento.

Nunca vi alguma pesquisa sobre onde o preconceito ocorre com maior ou menor incidência. Talvez os americanos, que adoram pesquisar de tudo, já a tenham feito, mas nunca ouvi falar dela. Mas também não é difícil concluir que o preconceito não é privilégio de um ou outro segmento da população. Nada disso. Ele existe em todo lugar, em todo tempo, em todo tudo! Tem em casa, tem no futebol, tem nas estações de trem.

E tem, claro, nas empresas; porque existem pessoas nas empresas. E pessoas são a única condição ambiental indispensável para a reprodução do preconceito. Nos últimos anos surgiu, por exemplo, uma espécie de preconceito no meio empresarial, mais especificamente na administração de recursos humanos, que é a rejeição a priori do profissional com mais de quarenta anos de idade.

O quarentão, candidato a uma vaga qualquer, pode e deve desistir de antemão à sua pretensão de colocação profissional. Ora, exatamente porque ele já tem mais de quarenta anos. E o que isto significa? Nem Deus sabe. E, claro, muito menos um certo tipo de recrutador: papagaio de repetição, este recrutador só sabe que o candidato tem mais de quarenta anos e, por isso mesmo, não pode ser contratado. É a política da empresa, ora!

Mas se perguntarmos a razão de ser desta política da empresa (ora!), ele, autômato burocratizado não saberá responder. Basta que ele saiba, e isto o satisfaz plenamente, que a política da empresa é esta. E ponto. Para ele, políticas empresariais são, por definição, indiscutíveis (mas que cara teimoso você é! Pare de querer discutir a política da empresa!).

Gente assim cabe com exatidão de mecanismo de relógio suíço na definição títere porcessionário, criada por Laurence Peter, a maior autoridade mundial em estudos sobre a incompetência. Títere é sinônimo de fantoche, marionete; processionário é aquele que segue, apenas segue. Há, para exemplificar, uma espécie de larva que segue a da frente. Colocadas em círculos, estas larvas processionárias ficam dando infinitas voltas umas atrás das outras até morrerem de fome, mesmo quando, como se fez em várias experiências de laboratório, havia alimento em abundância ao alcance de todas.

O títere processionário, portanto, é um verme que apenas segue e, assim, se manipula com facilidade. Como sabemos, há muitos deles nas empresas e demais organizações humanas.

Tem da portaria até a presidência. Porém, quando na administração de recursos humanos, passam por uma metamorfose peculiar e de origem desconhecida para assumirem a forma mais letal que se pode verificar na espécie dos títeres processionários: a forma que age sob estímulo exclusivo do preconceito, aquela opinião sem julgamento à qual já nos referimos, com poder de determinar a vida de pessoas.

Visto que o títere processionário não pensa, ele é evidentemente incapaz de julgar. E dá-se a um sujeito destes o tal ‘poder de vida e de morte’ sobre profissionais que cometeram o terrível engano de não contrariar a natureza das coisas e, imprevidentes, deixaram o tempo passar, atingindo os quarenta anos.

Pela lógica titeriana-processional, nada mais justo que punir estes ineptos que não combateram com vigor o passar dos anos. E ousaram envelhecer. Já que o profissional não foi capaz de fixar-se na idade dos trinta anos, também não será capaz de fixar-se na empresa ou num projeto qualquer. Corte-se-lhe, pois, a cabeça.

Mas os sujeitos que mudaram o mundo o fizeram, em sua esmagadora maioria, após completarem bem mais do que quarenta anos. Leonardo da Vinci, Isaac Newton, Gutemberg, Sidarta Gautama (vulgo Buda), Churchill, De Gaule, Henry Ford, Mahatma Gandhi, Roger Mila (que, até uns cinqüenta anos, jogou um bolão pela seleção de Camarões)… dê uma olhadinha em qualquer livro de história e confira.

Só Jesus Cristo não conseguiu; certamente porque não lhe deram chance de mostrar do que ele seria capaz após os quarenta (se aos trinta e três já era um terror, imagina aos quarenta!). Talvez os romanos fossem os precursores desta atual tendência da administração titerianoprocessional de recursos humanos: “Está a caminho dos quarenta?!? Crucifica o cara!”

Falei com um executivo europeu e ele disse que lá no velho continente idade não é fator de importância crucial. O que conta é o mix de vontade-competência-experiência. Então, estamos, no Brasil, criando know-how para exportação. Preconceito globalizado, mas made in Brazil! Nossos preconceitos em relação à idade nos fazem esquecer de sujeitos como Lee Iacocca, Antonio Ermírio de Morais e mais um punhado de sessentões, setentões e oitentões que, ainda hoje, estão à frente de seus barcos, são produtivos, arrojados, geram empregos e fazem suas empresas dar muito lucro.

Por outro lado, sobre os idiotas que recusam um profissional por questão etária, estes não poderão jamais ler algum texto primoroso que Manuel Bandeira ou Cora Coralina, ou Goethe ou Ernest Hemingway, tenham escrito, idosos, no final de suas vidas: por coerência, devem recusar tudo o que estes e outros tantos velhos desprezíveis tenham produzido.

A propósito, quando escreveu seu Dicionário Filosófico, Voltaire já tinha uns oitenta anos. Também convém que alguém conte a estes sujeitos (por pura sordidez e maldade) que logo, logo eles mesmo chegarão aos… quarenta!

Esta gente que cultiva opiniões sem julgamento o faz porque, evidentemente, não é capaz de julgar coisa alguma. Assim sendo, também não serão capazes de tomar, com equidade, alguma decisão que exija mais do que alguns neurônios e raciocínios primários. Devemos desprezá-los, embora com compaixão. E devemos, por pura lógica, desprezar também, e principalmente, quem

lhes confiou o cargo que exercem.