O bom e velho Português

Aprendi a escrever com uma professora fantástica. Magda era severa, mas divertidíssima. Foi minha mestra já no segundo grau [ou deveria escrever ensino médio?] e me preparou para o magistério.

Confesso que hoje, décadas depois, mal recordo tantas regras. O escrever é intuitivo e de ouvido, sabe? Se soa bem, está certo. Mas, em alguns casos, recorro às regras do bom e velho português para defender o meu texto.

Preciso dizer: vírgula não é orégano, como muitos insistem em pensar. Salpicam as tais pelo texto na tentativa de dar mais sabor aos parágrafos. Outros tantos acreditam piamente que ela, a coitada, é uma simples pontuação de respiração. Então, um texto para um nadador mal precisa delas, enquanto o para um fumante inveterado pede, ansioso, vírgulas a cada palavra. Respirar é função do nariz. Vai lá, pode usar a boca também. Mas não é a vírgula que vai fazer você respirar melhor. E ponto. Mas, não o parágrafo, entende?

Outro aspecto para pensarmos: o dois-pontos foi banido dos escritos. Reaprendi a usá-lo em A Louca da Casa, da escritora espanhola Rosa Monteiro. Fiquei apaixonada pelo dois-pontos. Sua função: enumerar vários aspectos do pensamento ou declarar qualquer coisa necessária. Só para citar dois empregos pertinentes.

Já o pobre do gerúndio, meu deus, nadou, nadou, e acabou morrendo na praia do telemarketing. De tão usado, o processo se estendeu e os mais explosivos o cortaram de vez. Mas, vamos combinar, né?! Quem é que usa indicativo, subjuntivo e imperativo corretamente? São tantos os tempos verbais, que estou pra conhecer Cristo que conjugue com maestria: Presente do Indicativo, Pretérito Perfeito, Pretérito Imperfeito do Indicativo, Pretérito Mais-que-Perfeito, Futuro do Presente, Futuro do Pretérito, Presente do Subjuntivo, Pretérito Imperfeito do Subjuntivo, Futuro do Subjuntivo, Imperativo Afirmativo e Negativo, Infinitivo Pessoal, Gerúndio e Particípio. [Ufa!]

Não sou ás no português. Concordo que temos diversas pegadinhas – as tais exceções às regras. A Última Flor do Lácio não é lá uma flor-que-se-cheire. Mas, também, não é um bicho-de-sete-cabeças. Na maioria das vezes, uma ida ao dicionário ou à gramática já ajuda. E muito. Ponto-final.

As cores que bebo

Sou uma artista plástica das palavras. Presunçosa, não? Mas, é assim que me gosto de me ver. Eu amo cores. Se pintasse, usaria muitas delas. E fortes. E vivas. E sobrecarregadas. Minha tinta é outra. Ao invés de cores, uso palavras. São tantas as nuances nas entrelinhas, que o quadro quase cria vida.

  • foto minha, de um drink que amo: frutas vermelhas com cachaça. Hummmm. *
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Belos Dias belos

A vida segue bela, não? Acho que para compensar o frio, o céu tem se vestido de belas cores. Os últimos dias foram divinos! Uma luz incrível. Um clima bom no ar… Eu simplesmente AMO ver o céu – ainda mais quando ele se pinta de azul e rosa. O meu lado romântico aflora. Fico com aquele olhar perdido. Um ar de graça estampado no rosto. Piso leve, como em nuvens…

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* Foto minha, do pôr do sol dia desses, da janela da agência *

O vinho do princípio


Ela segurava aquela taça como quem prende o mundo. Como quem segura o momento entre as mãos. Mãos frias de nervosismo. E a taça, a única coisa concreta naquele instante, a trocar calor com as mãos suadas de tensão. Nem o líquido tinto, encorpado, parecia real. Escorria pela garganta sedenta de grito. E desaparecia. Todos os sentimentos estavam ali, misturados. Tal qual numa garrafa rotulada, lacrada, meio guardada, meio exibida na adega. Sentimentos aprisionados. Sensações concentradas. O decanter se fazia necessário. Afinal, como apreciar a vida com tanta acidez? Respirar. Ela precisava respirar. Aspirar passado-presente-futuro de uma só vez, a encher os pulmões. E, entre-lábios, deixar que o ar saia de mansinho, até o fim. Para mais uma vez encher-se de mundo, de paz, de vida.

* ilustração vinda diretamente da Macacolândia. Espetáculo, não? *

O Pequeno Príncipe

Vocês podem até pensar que estou com crise de Miss ou algo parecido… Que nada. Eu explico: uma amiga vai ganhar um sobrinho e anda cheia de lindas idéias para receber o mais novo integrante da família. Eu bem sei como é isso. Quando ganhei João, meu filho e príncipe-herdeiro, foi a mesma coisa…

A Rê escolheu O Pequeno Príncipe como tema para todas as coisinhas que vai preparar para o Tomás – do Chá de Bebê ao quartinho! E cá estou cercada de Saint-Exupéry por todos os lados – convites, adesivos,TAGS de lembrancinhas.

Entre um job e outro, reli [Ui, 26 anos depois!] o livrinho, que de raso e infantil muito pouco – ou nada – tem!!! Estou encantada como as Misses. E se tiver que responder meu livro de cabeceira, direi sem pestanejar: O Pequeno Príncipe.

Como é linda e profunda a história. Tinha me esquecido completamente. Em quase todos os parágrafos fui catapultada para o passado em frente a TV. Gene Wilder com aquele sorriso maroto de Raposa ainda mora no meu inconsciente. A cobra, eu a apaguei da lembrança! Doeu demais vê-la seduzir o Pequeno e lhe roubar os sonhos – ou era assim que eu imaginava, no passado, do alto dos meus 9 ou 10 anos de idade. Fui inocente a interpretar o fim. E confesso: a voz doce de Aldamária Mesquita [dubladora do Pequeno Príncipe] ainda ecoa na minha mente com suas constantes indagações “Que é…?”

 

(…) Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo…(…)


Taí. Gostei do meu momento Miss. Agora volto mais leve para os tantos outros livros que ainda preciso ler. É certo que ficou um pouco do romantismo-raposiano. Quem sabe, entre uma página e outra nos tantos cafés que freqüento por aí, não encontro alguém que me cative?!

Eu sonhei com o mar

Hoje pela manhã, entre um sono e a preguiça de acordar, sonhei com o mar. Um mar tão azul, tão incrivelmente azul, que tive vontade de mergulhar da minha janela. Um forte vento leste varria a calçada e as areias, revelando uma vegetação que eu não imaginava existir – verde, enfim, por baixo da branca e fina areia. Do alto do sétimo andar, eu observava aquele mágico mar a se transformar sob meu olhar. E, num piscar, ele invade meu quarto, pela fresta da janela que não pude fechar. Acordei, então.

Acredito que sonhos trazem respostas. É certo que em uma linguagem que precisa ser decifrada, desembaralhada, interpretada, trabalhada [e não digo olhar num dicionário!]. Este meu sonho doido traz mil símbolos, todos interessantes e cheios de significados para mim. Mas isto é tudo o que eu vou dividir…

A mulher sentimental

Redundâncias incontidas extrapolam para a tela do meu computador. Como falar de mulheres sem falar de sentimentos? Somos inseparáveis. Aliás: mulheres são feitas de sentimento, assim como suspiros são de açúcar!

Pelo menos, ela era. Não somos todas, afinal?

Mas, seus quereres eram coloridos, quase sempre, pelas mais fortes das emoções. Sempre foi assim. O tempo só fez apurar tanto sentir.

Com palavras, pintava cenas que bem poderiam ter saído de uma tela de Frida Khalo ou de um filme de Almodóvar. Especializou-se nas cores sentimentais, carregadas de vermelho visceral.

Intensa. É assim que gostava de ser. E da vida queria o que havia de mais quente, mais apimentado: queria tempero! Porque não podia acordar todos os dias para uma existência morna, plácida, medíocre. Queria ápices.

Na ilusão de construir seu castelo azeitado, ela perdeu todas as chances de saborear uma vida plena. Deixou passar a lição de que a felicidade está na média de todos os dias, no caminho do meio. Mal sabia ela que o clímax ardentemente desejado encerraria as cortinas daquele espetáculo, no exato momento em que a mocinha fechasse os olhos.

Eu ainda procuro por aquele que acalmará as marés de dentro de mim. E essa minha busca tem trilha sonora…

For The First Time
Rod Stewart

Are those your eyes
Is that your smile
I’ve been looking at you forever
Yet I never saw you before

Are these your hands
Holding mine
Now I wonder how
I could have been so blind

(Chorus)
For the first time
I am looking in your eyes
For the first time
I’m seeing who you are
Can’t believe how much I see
When you’re looking back at me
Now I understand what love is, love is
For the first time

Can this be real
Can this be true
Am I the person I was this morning
And are you the same you

It’s all so strange
How can it be
And all along this love
Was right in front of me

(Chorus)

Such a long time ago
I had given up on finding
This emotion ever again
But you’re here with me now
Yes I’ve found you some how
And I’ve never been so sure

(Chorus)

For the first time

Se fosse…

Se fosse uma flor – gérbera
Se fosse um
brinquedo – boneca
Se fosse um
mês – setembro
Se fosse uma
brincadeira – mímica
Se fosse uma nota
musical – sol
Se fosse uma
cor – vermelho
Se fosse um
filme – Barbarela
Se fosse um
feriado – ano-novo
Se fosse uma
comida – cuscuz marroquino
Se fosse uma
bebida – champanhe
Se fosse um
disco – Gotan Project
Se fosse uma
música – Glory Box
Se fosse um
dia da semana – quarta-feira
Se fosse um
periférico do PC – webcam
Se fosse um
doce – maçã-do-amor
Se fosse um
programa de TV – novela
Se fosse um
canal de TV – GNT
Se fosse um
cômodo da casa – cozinha
Se fosse um
instrumento – gaita
Se fosse um
objeto – luminária
Se fosse uma
árvore – cajueiro
Se fosse uma
fruta – morango
Se fosse uma
paisagem – recife de corais
Se fosse um
bicho – cachorro
Se fosse um
lugar – Galápagos
Se fosse uma
estação do ano – primavera
Se fosse uma
frase feita – “Posso ser quem eu quiser, e posso mudar de idéia, por Bia Quadros.
Se fosse uma
peça de roupa – T-shirt
Se fosse um
elemento da natureza – Fogo
Se fosse um
objeto motorizado – Harley Davidson
Se fosse um
aparelho eletrônico – celular
Se fosse uma
pessoa da sua família – eu
Se fosse um
sentimento – saudade
Se fosse um
perfume – Hot
Se fosse um
livro – o que ainda vou escrever
Se fosse uma
conquista – o mundo
Se fosse uma
parte do corpo – pés
Se fosse uma
pedra – opala
Se fosse uma
dúvida – hum?
Se fosse uma
marca – Gucci
Se fosse um
eletrodoméstico – multiprocessador
Se fosse um
jogo – pôquer

Li e gostei. Agora, me deparo com algo parecido no livro que estou a ler, do delicioso Agualusa, As mulheres do meu pai. Voltei no Blog da Rachel e roubei. Taí.

Resposta aos navegantes

[Esta é uma resposta aos meu dois queridos leitores]

Pensava em uma trilha sonora para este post… [eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é o meu lugar] Mas achei que seria óbvio demais.

Parei 20 dias. Vinte dias riscados no calendário [mas sempre imaginando riscar a parede…]. Vinte dias corridos sem precisar pensar em cliente, chefe, texto, dead-line-briefing-call-to-action. Vinte dias sem ligar o computador!!! [tudo bem, mas liguei – em alguns poucos momentos – o meu notebook].

Questionei muita coisa. Repensei outras tantas. Encontrei poucas respostas. Mas estou satisfeita. O saldo foi positivo. Fim de férias, dois novos livros para ler. Um workshop para terminar e aí me preparar para a melhor fase: dar aulas!

No meio disso tudo, encontrar tempo de qualidade para a família, João – o príncipe-herdeiro, Terça-Santa [o encontro da mulherada], Chopp de quinta [papo semanal com a amiga-gêmea e agregados], encontrar um namorido [super-importante, by the way!], ler blog-interessantérrimos e deliciosos, atualizar o meu… Ufa! Haja fôlego.

Estou de volta. Caótica como sempre, bem-humorada como nunca!

Panorama meu, de todos os dias


Essa panorâmica sempre foi admirada. Estou em casa!
E, da janela da sala, respiro espaço aberto, um pouco de verde, um tanto de céu e muitas outras janelas.

Quem não tem colírio…

Adoro óculos escuros. Quem me conhece bem sabe! Este par é da Rennas, outra amiga-gêmea, que comprou exatamente o que eu queria, mas deixei passar…

Dou as caras por aqui, numa fotita até simpática, mas o texto é de poucos amigos. Estou ácida demais hoje para escrever poesia-pôrno-erótica-romântica. Ou então teria que assumir o lado calçada da vida – o que não é da minha catiguria… lucubrações assim eu deixo para outro dia. Combinado?

Sempre tive dedo-na-cara a me dizer que uso óculos cor-de-rosa. Eu até admito e faço a mea culpa: tendo ao pensamento positivo – o lado bom das coisas – mas não abstraio o que não-deu-certo.

Vejo um mundo de impunidades. Pessoas que pensam passar a perna nos outros. Crimes-do-nada-por-coisa-alguma. E por isso vou aceitar que o mundo é isso aí e não tem jeito?

Pior é me ater a detalhes e desconsiderar o todo só porque eu não concordo com aquele-específico-detalhe-cabeça-de-alfinete!!!

Preciso exemplificar?!

Estava curiosa sobre uma série dentro do Fantástico. O Mundo de Valentina me cativou. E preocupou. No último episódio da série, Gabriel resolve fazer uma experiência para constatar o volume de lixo produzido em um mês inteiro. Sob o olhar de desaprovação de Franciele, o lixo cresce. Achei interessantíssimo ele ter feito isso [porque eu jamais faria, com medo das baratas!]. Infelizmente, todo o discurso-questionamento de Gabriel vai por água abaixo só por causa desta experiência. Uma pessoa [que vai continuar no anonimato] que assistia o documentário ao meu lado parou no detalhe acúmulo-de-lixo e questionou a sanidade do rapaz. Todo o resto foi descartado por ela não concordar com a sandice de guarda lixo. Pode? Os ouvidos se tamparam instantaneamente!!! E qualquer discursão a respeito era refutada com a frase: – onde já se viu guardar lixo?!. Vai entender…

Eu uso óculos cor-de-rosa. Se enxergar a vida como um processo contínuo que pode mudar para melhor é usar lentes coloridas, então é fato: eu uso. E recomendo.

Minha porção Eva

Uma tentação, não é mesmo?

Eu que fiz. É, não me olhe com essa cara de espanto! Eu fiz, com minhas próprias mãos [e sem ajuda!] todas essas maçãs-do-amor aí da foto. Exercitei minha porção Eva. Deixei aflorar meus mais doces instintos e criei, uma por uma, essas deliciosas maçãs-do-amor.

Ficou com água na boca, não é mesmo?

Pois deveria. Elas estão DE-LI-CI-O-SAS. A cozinha é, pra mim, um laboratório de alquimia, um lugar mágico. Embora nem todos acreditem, eu amo cozinhar – porque descobri que posso criar diferentes estados alterados de consciência. Posso seduzir. Emocionar. Saciar. E posso até matar…

Minha porção Eva está toda feliz. Voltei às origens.
Mais uma vez vou seduzir com a maçã.

Borboletas no estômago


A expressão [so cute] é uma das minhas preferidas. Não porque eu esteja sempre com borboletas no estômago. Mas, justo pelo contrário. Sinto a falta delas. E só agora me dei conta.

Como tenho saudade de ter na barriga um montão de borboletas a farfalhar sandices românticas com o bater de suas mil asas!

Sinto-me uma nostálgica do futuro. [Deixa eu explicar, e você verá que é simples e mais comum do que pensa]. Eu simplesmente sinto saudade do que não aconteceu. Ainda. Uma falta de tudo o que eu poderia viver e ainda não experimentei, ainda não degustei, ainda não apreciei.

Não falo apenas dos relacionamentos amorosos. Aqui, eu falo da Vida. Falo da vida efervescente como fonte de água gasosa em eterno borbulhar – champanhe – é disso que eu falo e sinto muita [muita!] falta. Porque a vida é bela sim. E pede brindes de cristal [o copo e a bebida!] por uma tarde de sol fresco como a de hoje, dia de Lagoa com leves ondas incessantes no seu espelho, e olhares plácidos pela janela.

É lógico que sinto saudade das minhas borboletas baterem suas asas por um amor-com-pegada-vem-cá-Bebel. Também sinto falta disso – e como! Mas essas borboletas são arredias, quase selvagens, e não aparecem por qualquer-motivo-em-qualquer-florzinha-de-jardim.

Enquanto não tenho essas asas deliciosas a congestionar meus sentidos, acho que vou bebericar champanhe e ver a vida desfilar felinamente leve diante meus olhos crédulos. Porque eu sinto falta, mas não sou tola para deixar de ver a beleza que espreita este inverno-querendo-ser-primavera.

Dia desses, as borboletas voltam a farfalhar no meu jardim.
Elas sempre retornam.

Em algum lugar…


Sensação. Meu sexto-sentido me diz que algo está para acontecer. Eu sinto. É bem aqui, ó. Embora você não possa ver, aponto para o meu plexo solar, central de toda a minha identidade, dizem até que uma fábrica de auto-estima. [Vai saber!].

Mulher tem dessas coisas, não é mesmo? Tal a sensibilidade, que captamos no ar o que ainda não aconteceu. Anteninha antenada!

E assim, com tamanha certeza, eu sei. E falta muito pouco. Vai acontecer.

Ele estava lá, na minha frente. Não notei logo de cara. Eu lia qualquer coisa e nem me lembro bem. Ele ouvia uma música nas alturas. Até que, uma hora, o som que vazava dos fones chegou ao meu mundinho particular, roubou minha atenção. Eu ri, sem levantar os olhos das páginas, imaginando um adolescente com seu iPod.

Mas, fisgada pela curiosidade de reconhecer o som – sou boa nisso, apesar de nunca saber o nome da música ou do cantor – procuro aguçar os ouvidos, emprestando os olhos para observar melhor.

Seu cabelo encaracolado, de um marrom escuro, estava grande, num corte moderno meio desleixado. Um pullover marinho esquentava a nuca e a garganta, com as mangas a dar voltas pelo pescoço – um abraço com cheirinho de amaciante, imaginei. Além da música, a leitura disputava sua atenção.

Lá estava ele. Alguém muito próximo e distante de mim. Separados por um banco de ônibus. Por uma vida inteira. Por um olá, talvez.

A pele branca e o perfume oriental me guiaram em uma viagem imaginária de amor romântico. Ali, naquele ônibus, eu conhecia – enfim – o alguém que eu tanto esperei. Seu sorriso doce me falou do passado. Ele se revelou em muitos detalhes. Desenhou o futuro ideal. E rimos do presente inusitado que vivíamos. Quem poderia imaginar, dizia ele, num ônibus! Trocamos segredos sem palavras. Perdoamos os erros que cometeríamos. Combinamos surpresas para as datas especiais. Encaixamos.

A luz da Lagoa, naquela manhã, estava mágica. Preferi descer do ônibus sem me despedir. Nosso amor merecia continuação…


* fotos minhas, dia desses, no 157 rumo à Lagoa *
p.s.: Se você por acaso se reconhecer na foto, me desculpa. Não resisti e inventei a nossa história.

Lulus Rules

Querido diário, ontem saí com umas amigas. Anna, Rennas, Patty e eu [a única a não ter letra dupla!] passamos horas a falar mulherices…

Se eu contasse tudo o que nós, mulheres, conversamos, você – definitivamente – ficaria encabulado. Porque é verdade: mulheres falam muitas besteiras quando estão juntas. Vou negar pra quê? O papo começa com amenidades e sempre [sempre] descamba. Mas nunca falamos futilidades!

Mulheres falam de sentimento. Mesmo que o assunto em voga seja a falta dele. Conversamos sobre tudo o que nos faz sentir – sobre aquele modelito na vitrine fashion, o jantar de ontem à noite, o carinha da semana passada, sobre chefes e clientes, e até mesmo sobre o grande amor de nossas vidas. Não há assunto-tabu. Não há tema predileto – porque o descambo é inevitável – então, TODOS os temas levam ao mesmo lugar.

O papo de mulher nem sempre é igual. Não radicalize, nem generalize. Você vai se enganar. Embora a gente sempre fale de sentimentos, o papo entre amigas é um. Com colegas de trabalho, outro completamente diferente. Entre mulheres que se encontram no cabeleireiro, então, nem se comenta. A habilidade de verbalização e a extensa lista de palavras que conhecemos – e dominamos – fazem o assunto render e se desdobrar em diversas direções. Cada papo é O Papo. E como apenas 7% da comunicação é a palavra escolhida, por mais que falemos sobre as mesmas coisas, nunca falaremos AS MESMAS COISAS. A diferença está nos 93% que nossa personalidade única imprime na comunicação. Entendeu?

Mulheres adoram falar [!]. Amam mais ainda falar besteiras. E como é rico nosso papo! São caras e bocas dignas do Oscar. Entonações que mudam completamente o significado da palavra. E, quando entre amigas de verdade, uma telepatia de fazer inveja! Basta um olharzinho de lado e já traduzimos parágrafos completos!

Muitas vezes, um papo entre amigas é mais produtivo do que meses de terapia!

Por tudo isso eu guardo alguns dias Santos – não troco [por quase nada!] os encontros com minhas amigas. Tudo começou com a Terça-Santa – uma vez por mês nos encontramos num bar da zona sul carioca. O garçon, Genésio, faz cara de armário todas as vezes que pesca um assunto-descambado! [É o máximo]. Semanalmente tem o Chopp de Quinta, quando encontro a amiga-gêmea pra colocar o papo em dia. Ela é de Petrópolis, e sempre traz amigos para um interessante rodízio de idéias. Agora, acabei de instituir o Lulus Rules, nas tardes livres de domingo. O dia light é pra esconder o mais científico encontro de amigas. Este pode até dar livro, de tão fundamental que é!

Incautos, mulherices à parte, Lulus Rules é bomba-atômica-pimenta-malagueta.

Aguardem. Doces frutos serão aqui publicados.

Era uma vez…


Um borrão. Foi assim que ela viu tudo passar na velocidade da luz pela sua retina. Tudo mudou tão rápido que mal pôde acompanhar.

ZAZ!

Foi-se.

Depois daquela esquina, tudo ficou mais claro. Nítido.
Agora sim, ela enxergava além.

As janelas. Sempre tem uma janela nos meus pensamentos. Metafórica ou real, feita de alumínio, madeira ou puro vidro, sempre tem uma janela.

A janela fechada quebrava o ventinho frio que vinha da Lagoa. Apesar do dia de sol, fazia frio. E ela pensou: como é bom sentir esse sol gelado. Sua percepção, seus sentidos estavam aguçados. É a beleza, conjeturou. O belo se fragmenta, facetado como cristal, se expande – contagia. Assim tudo ganha um pouco da beleza – que jamais é egoísta…

Lembro-me de André Gide, escritor francês. Sua frase ainda ecoa na minha cabeça:

Que a importância esteja em teu olhar
e não na coisa olhada.

André vive e respira em mim todas as vezes que olho pela janela.

* Fotos minhas, feitas através da janela do 157, rumo à Lagoa.

Eu quero uma Matilde pra mim…

Recebi um desafio. E dos grandes, pelo que deu pra perceber até então… desafio gostoso, sabe? Daqueles que, quando conquistados, estufam o nosso peito. Mas não sei não. Ainda tenho dúvidas. Mas quando imagino os olhos de Leninha, pendurada na cintura de Matilde, girando pela casa, dá vontade de gritar: eu topo!

Conheci Leninha há pouco, mas sua visão de mundo – particular das crianças com poucos anos – me cativou. Esqueci da singularidade das palavras infantis. João, meu filho, ainda não fala frases inteiras, apesar de conversarmos horas a fio… Acredito que João vai gostar de Leninha.

Até os meus vinte e pouquinhos, olhava os de mais de trinta com certa desconfiança e encantamento. Achava que lá, eu desvendaria mistérios, entenderia das dores d’alma e teria me curado das paixões. Naquela época, eu acreditava que ao trinta anos eu teria CERTEZAS.

Então, ao conhecer Helena Maria e suas indagações, vejo que – no fundo – não mudamos muito. As marcas no rosto, a pele um pouco mais flácida, uns fios brancos mostram que o tempo passou. Mas as certezas que eu esperava ter, ainda não mandaram notícias. Ou eu não cresci, ou perdi alguma coisa…

Dá pra desenhar, pra ver se eu entendo melhor?

Também quero…

Sempre usei a palavra como matéria-prima. Escultora de sensações, dou formas as minhas idéias, crio mundos. Envolvo, simulo, guio. E assim, entre-vírgulas, entre-linhas, sem ponto-final, vou alinhavando a trama. Das palavras, faço tecido – e ao me vestir de poeta, dispo pudores, máscaras, malhas feitas pra esconder e proteger.

Na prosa, estou nua.

As coisas que quero

Quero um amor. Quero sensações.

Quero aquele frio na barriga que dá na hora em que os olhos se encontram.

Quero aquele arrepio quando a pele esbarra de leve uma na outra.

Quero a boca seca a esperar pelo beijo.

Quero a tontura da paixão.

Quero o sexo molhado pela lembrança.

Quero me perder em sonhos, quero me achar nos braços seus.

Quero beijos úmidos e demorados.

Quero que você me pegue com força, mas que seja doce.

Quero o encontro de almas.

Quero que nossos corpos se encaixem e peguem fogo!

Não quero nada morno.

Quero fogo!

Quero paixão.

Quero carinho nos cabelos, massagem nas costas, cócegas nos pés…

Quero comida na boca e beijos com gosto de vinho…

Quero me despir dos medos ao tirar a roupa

E me vestir de êxtase ao deitar com você…

Quero você, homem-menino

Cheio de sonhos, cheio de garra

E quero ser tudo pra ti.

Quero, quero, quero, quero… EU QUERO!

Eu quero!

Quero ser pornográfica, incontida, impulsiva. Quero ser selvagem.

E quero ser sempre assim: essa é a minha meta.

Não quero dar satisfação a ninguém. Não quero prestar contas senão a mim mesma.

Quero fantasiar cenas tórridas com qualquer estranho.

Quero desejar seu sexo a todo instante. Fantasiar coisas sem sentido.

Quero ter a voracidade no olhar, a volúpia na pele e te devorar a todo o instante.

Quero ser indecente, devassa.

Quero ser uma mulher de Nelson Rodrigues. E de João, de Carlos, de Manoel, de Felipe, de Daniel… e de todos os homens que cruzarem o meu caminho.

Quero ter você impresso na minha retina.

Quero seu gozo gravado na minha memória.

Quero suas unhas na minha carne.

Quero gozar um gozo novo a cada dia.

Quero ser vouyer. Quero ser exibicionista.

Quero ser diferente.

Quero ser a melhor.

Quero ser a única.

Quero ser santa.

Quero ser puta.

Quero ser sua.

Já que hoje é dia dos namorados,
declaro minhas intenções:
eu quero!

A foto busquei em São Google.