Escolhas

Preciso desabafar: que prisão é essa que,
quanto maior a liberdade de escolha,
maior também a tormenta das possibilidades?

Sempre fui perfeccionista [é, por anos a fio sofri deste mal]. Quis o melhor dos mundos, a escolha certa, afinal. Busquei a certeza, deixei que a dúvida me corroesse. Achava-me livre, tendo tantas escolhas. Acabei presa. Ansiosa.

Confirmei, na prática, o mantra educativo da minha mãe [que sábia mulher!]: excesso de liberdade nem sempre é bom.

Hoje, tentando educar o príncipe-herdeiro [sim, porque eu sou a rainha do meu lar!], esbarro direto no que posso dizer ser o meu maior temor – como dar limites a um serzinho que tem um mundo inteiro ao alcance da mão?

Escolho a qualidade de vida. A tranqüilidade de ter o que preciso, sem me preocupar se este é o melhor negócio que poderia ter feito. Acho que cresci. Não dizem que a sabedoria vem com a idade, e que traz também serenidade? Pelo menos estou no caminho…

Quais são as suas escolhas?

A minha parte

Quero uma vida mais simples. Não estou falando de um amor e uma cabana. Mas de uma simplicidade voluntária, desejada, construída.

Também quero parar três minutos o que estiver fazendo pra ver o sol na lagoa, ou sentir o cheiro de chuva. Ganhar meu dinheiro, sem vender minha alma! Chorar de rir, por uma besteira qualquer. Ver nos seus olhos a minha vida inteira. Quero ser feliz. E quero deixar um mundo melhor pro João e, quem sabe, os outros que virão…

Quero um planeta vivo, pulsante, alegre, verde.

Eu vou fazer a minha parte. E você?

Bombas de sementes [clique pra ver o original]

Para fazer brotar plantas e flores em canteiros abandonados que precisem urgentemente de algum verde…

1. Misture num balde duas partes de sementes e três de adubo e depois acrescente cinco partes de argila em pó.

2. Jogue água e misture até formar uma massa úmida. Enrole bolinhas de cerca de 2 centímetros.

3. Saia pelas ruas e jogue cuidadosamente essas bolinhas em canteiros e praças degradadas.

4. As “bombas” carregam nutrientes suficientes para que os brotos comecem a crescer em solo pobre – é só esperar as próximas chuvas.

Você já parou pra pensar na vida?

É incrível a tendência da raça humana de mecanizar seus processos. Aprendemos por generalizações – na terceira tentativa de fazer algo, já criamos a ilusão de que sempre será daquele jeito.

Agora, o contrário pouco acontece! Partimos de um pressuposto: é assim [sempre foi assim!]. E a coisa não funciona. Tendemos a continuar naquela bendita [?] ação, esperando um resultado que nunca alcançamos.

E por que raios, para mudar o tal processo, precisamos bem mais do que três tentativas/erros [ou cara na parede, se você preferir]?

No fim das contas, o problema é sempre com o outro. Não é?

Ação e reação.

[Não, eu não estou sendo reativa! Estou colocando em linhas o pensamento, para uma análise crítica e reflexiva.]

E você, o que pensa de tudo isso, afinal?

Meu caminho

Aguçar o olhar.
Procurar outras paisagens, novos horizontes.
Exercitar a busca pelo belo.

Todos os dias, me desligo do trânsito caótico da cidade, da poluição sonora e visual que dominaram as ruas, dos rostos mal-humorados às nove da manhã num ônibus lotado.
Aproveito esses 30 minutos que me separam da agência e abro bem os olhos pra admirar – extasiada – o meu caminho. Aos poucos, contornando a rotina, conquisto qualidade de vida.

* as fotos eu fiz com o meu W810i. Que paisagem, não?

Um dia dos deuses

[Não. Este não é um blog sobre comidinhas, apesar de parecer. E não. Não escrevo sobre gastronomia. Escrevo sobre experiências.]

três-ponto-sete

Ontem completei 37 anos.
Mas parece que a adolescência não ficou tão longe de mim assim…
Por que será que não cresço?

Adoro presentes!

O que faz cada um ser o que é?

Definitivamente, aquele tombo que levei aos 9 anos de idade influenciou sobremaneira o que sou hoje. A cicatriz está aqui, estampada no rosto, logo abaixo do lábio inferior, pra quem quiser ver. Rosa pálida. Discretíssima, mas presente. Mal sinto seu relevo sob os dedos…

Foi o medo que me fez cair do banco alto da mesa da cozinha, perto do fogão a lenha. Medo suarento, exagerado, quente, espalhafatoso. Naquela época, eu tinha medo de bichos. Qualquer um. Até o mais fofinho filhote me fazia tremer. E a casa da tia Alice tinha um sortimento incrível de bichos.

A escada do jardim da frente descia até a areia branca e fina da praia quase particular. O mar de Angra dos Reis, esmeralda e morno, era a única coisa que eu gostava dali. Cachorros, gatos, galinhas, porcos, marrecos, periquitos e papagaios viviam livres pelo quintal, correndo uns atrás dos outros, fazendo da cozinha aberta nos fundos da casa o ponto de encontro mais barulhento e animado que você possa imaginar – para o meu desespero.

Tia Alice era casada com o tio Abílio. Eles tiveram uma penca de filhos. Jurema, Jucilene, Jandira, Julio, Gilberto. Todos com nomes iniciados pela letra J – a preferida do tio Abílio. [Vai tentar explicar pro tio Abílio que Gilberto começa com G…]. É Juberto. Juberto com jota, sim senhor, dizia ele, brabo, cheio de certeza. Quando finalmente entendeu, nasceram Geraldo e Eduardo.

Viajávamos para Angra todas as sextas-feiras pela manhã. Às vezes, ficávamos a semana inteira. Meu pai tinha um escritório por lá, tentativa de juntar o útil ao agradável. No começo, era na casa da tia Alice que nos hospedávamos. Casa simples, sem luz elétrica, água quente ou outros luxos. A vida era ao ar livre. E cheia de bichos.

Aos 9 anos de idade, tudo o que não fosse gente, vegetal ou mineral era bicho pra mim. Vespa? Bicho. Mosquito, marimbondo, mosca? Bichos. Cachorro, gato, galinha? Bicho, bicho, bicho. Deu para ter uma idéia do meu desespero, não? Pois então. Durante o dia eu fugia dos animaizinhos permanecendo o maior tempo possível dentro d’água. Minha mãe só conseguia me tirar do mar quando gritava que a comida estava no prato. Hora nervosa, digo, porque todos os bichos adoravam ficar rondando a mesa da cozinha, a esperar um naco qualquer atirado dos pratos dos implicantes filhos da tia Alice.

Como eu me contorcia, a subir as pernas, todas as vezes que algum quatro-patas passava pelo meu banco – o mais alto da mesa! E assim, rebolativa, eu almoçava, muitas vezes às lágrimas, de tanto medo daquelas criaturas. Foi por isso mesmo que caí.

Levei três pontos. E decidi acabar de uma vez por todas com aquele medo irracional. Acho que desde aquele ano sigo decidida – quando digo chega, não há santo que me faça mudar de idéia.

Você tem fome de quê?


Julia é tudo de bom. Com um ritmo delicioso, ela fez do blog um livro. Indicação da minha diretora de criação, a leitura é fácil, cativante até. Confesso que fiquei com água na boca.

Aí, me vem a pergunta: você tem fome de quê?

Eu tenho fome de ler, de ser lida. E de entender (embora não tenha muita vontade de ser entendida). Eu tenho fome de vida. Como se não bastasse a que tenho pela frente – também quero devorar todas as outras possíveis de serem criadas, preparadas, azeitadas, marinadas, fermentadas… Sou uma glutona, quando o assunto é viver.

CLICK!

Edacíssima por experiências, devoro a vida que me consome.

Levantou poeira

Tá bom, tá bom… quem passa por aqui (se é que tem quem passe…) deve achar que este blog está entregue aos mais hediondos insetos rastejantes e outros ignóbeis voadores. Mas não é bem assim.

É certo que não tenho escrito com certa assiduidade…

Tô passando só pra levantar a poeira, arejar as entrelinhas. Daqui a pouco escrevo algo mais significativo. Prometo.

Camaleão eu sou

Eu uso as cores que eu gosto, e com isso faço bem. Eu gosto dos bons conselhos, mas faço o que me convém. Quem não agrada a si mesmo, não pode agradar ninguém…

Aprendi hoje. Copiei daqui.

Braguinha sabia das coisas

Porque hoje já é carnaval...


Chiquita bacana lá da Martinica
Se veste com uma casca de banana nanica

Não usa vestido, não usa calção
Inverno pra ela é pleno verão
Existencialista com toda razão
Só faz o que manda o seu coração.

Tô me sentindo a própria!

No meio do meu caminho

 

 

 

É incrível. Mas uma chuvinha de nada já atrapalha horrores a vida de quem tem que passar pela Lagoa. A rua vira rio. Os carros levantam água. A gente sofre.

Como é que eu vou sã e salva pra casa, agora?

Acabei de tirar essas fotitas… [é, a máquina fica sempre na bolsa – coisas de quem é addict!]

Ouço você

Ele chegou de mansinho,
calmo, com seu jeito de menino,
olhar vivo e curioso

Ele falou da vida
cantou baixinho
flertou comigo

Ontem, ouvi um “Eu te amo”
com gosto doce de morangos maduros.

Paixão nascente, eu sei.

Repete baixinho, vai… isso é música para os meus ouvidos.

Cuidado: P.O.I.S.O.N.


Palavras bonitas, muitas vezes, são venenos disfarçados.

Ontem, ouvi um “Eu te amo”
O gosto amargo lembrava amêndoas.

Cianureto, agora eu sei.

Desceu queimando, goela abaixo.
Aniquilando sonhos possíveis.

Carete de amor,
acreditei naquelas palavras…
Íons CN mataram minha realidade desenhada.

Eu não sou reativa

Certa vez, acompanhava um amigo à banca de jornal. Meu amigo cumprimentou o jornaleiro amavelmente mas, como retorno, recebeu um tratamento rude e grosseiro. Pegando o jornal que foi atirado em sua direção, meu amigo sorriu polidamente e desejou um bom fim de semana ao jornaleiro. Quando descemos pela rua, perguntei:

– Ele sempre te trata com tanta grosseria?
– Sim, infelizmente é sempre assim.
– E você é sempre tão polido e amigável com ele?
– Sim, sou.
– Por que você é tão educado, já que ele é tão inamistoso com você?
Porque não quero que ele decida como eu devo agir.

[Não é o ambiente que nos transforma, mas nós que transformamos o ambiente].

Adaptação do original de John Powell.

Atalhos

Estava pensando em como construir um atalho… aí, entre muitos textos que leio todos os dias, descobri esse aí. Nem preciso dizer que serviu feito luva.

Atalhos

Quanto tempo a gente perde na vida? Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros. Depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, aí mais tarde demora pra entender certas coisas, demora pra dar o braço a torcer. Viramos adolescentes teimosos e dramáticos. Levamos um século para aceitar o fim de uma relação, e outro século para abrir a guarda para um novo amor, e já adultos demoramos para dizer a alguém o que sentimos, demoramos para perdoar um amigo, demoramos para tomar uma decisão. Até que um dia a gente faz aniversário. 37 anos. Ou 41. Talvez 48. Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto. E a gente descobre que o tempo não pode continuar sendo desperdiçado. Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado no segundo tempo e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola pro goleiro ou fazer tabelas desnecessárias. Que esbanjamento. Não falta muito pro jogo acabar. É preciso encontrar logo o caminho do gol.

Sem muita frescura, sem muito desgaste, sem muito discurso. Tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade, é ir direto ao assunto. Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada, pra todo o resto é melhor atalhar. E isso a gente só alcança com alguma vivência e maturidade.

Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando, não esperam sentados, não ficam dando voltas e voltas, não necessitam percorrer todos os estágios. Queimam etapas. Não desperdiçam mais nada.

Uma pessoa é sempre bruta com você? Não é obrigatório conviver com ela.

O cara está enrolando muito? Beije-o primeiro.

A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera.

Paciência só para o que importa de verdade. Paciência para ver a tarde cair. Paciência para sorver um cálice de vinho. Paciência para a música e para os livros. Paciência para escutar um amigo. Paciência para aquilo que vale nossa dedicação. Pra enrolação, atalho.

Martha Medeiros escreveu isso em algum lugar do passado.

Mudei.

Eu já estava acostumada com os velhos caminhos. [Todo dia ela faz tudo sempre igual…] Eu sabia das cores e dos cheiros e das sombras daquelas ruas que eu sempre atravessava. Conhecia as folhas nas calçadas, as janelas abertas, as portarias da avenida. Já conseguia prever os futuros vincos nos rostos que cruzavam meu caminho sem dizer bom-dia. Há tempos era tudo igual. Da mesma maneira eu seguia a vida, ignorava alguns desvios, inventava outros. Até ontem.

Dormi diferente. Acordei em um novo mundo, posso dizer. As caixas ainda estão lá. Mas a alma…

Hoje pela manhã, os barulhos eram outros. Até a luz era diferente. Sei que é um momento de transição. Muita coisa vai mudar ainda mais. Com certeza já posso dizer: estou ansiosa pelo que vem por aí.

Hoje pela manhã, os poucos segundos que me separavam do outro lado da calçada passaram em horas. Na cabeça, tantos pensamentos… meu ritmo é outro. Assim como as paisagens.

Hoje pela manhã, meu futuro começou novamente.