As coisas que não me lembro


Ouvi dizer que não apagamos a memória. Apenas “perdemos” o caminho de acesso à determinada informação.

– Que bom, penso. Afinal, não queria perder para sempre todas as coisas que não me lembro, mas sei que estão lá…

 

Tenho um mar de lembranças perdidas, esquecidas nalgum lugar que não sei onde. Sensações que queria de volta, para ilustrar um parágrafo da minha história. O passado me parece tão distante, nublado além da conta. Fecho os olhos para lembrar, mas… mal toco o véu que me separa do ontem. Aquele sabor se perdeu na memória. Uma vida inteira jaz n’outrora.

Não me lembro do meu primeiro beijo. Ou do que senti quando aquela língua invadiu minha boca, ansiosa pela descoberta, ingênua dos tremores que, talvez, tenha me causado. Não me lembro de ter ficado a noite inteira acordada, depois de ter experimentado o gosto daquele menino-homem, que me conduzia numa dança lenta, cheia de mãos e coxas, que durou uma eternidade. Não me lembro do fim que levou Nando. [Fernando. Acho que esse era o nome dele…].

O que mais está ali, a um passo, pronto para ser relembrado? É certo que sinto falta dessas sensações aqui, à flor da pele. A falta deste colorido empobrece meus textos, atenua o impacto das palavras que escolho. Como se tivesse apenas olhos para o que virá, como se tivesse dado as costas a tudo o que vivi…

* foto minha, dia desses, em Ipanema.