A vida que segue

Hoje acordei nostálgica. Aliás, fui dormir assim.

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Fui buscar referências do que um dia fui… achei este e muitos outros escritos. Deu vontade de colar aqui:

A vida que segue

Um dia, falava a algum conhecido sobre as delícias dos cafés que agora ocupam as calçadas do Leblon, invadindo assim a minha vida. Morro sem eles.

Fim de tarde, pessoas queridas ou a companhia de um livro. É sempre um passatempo agradável: boa comida, grandes amigos, um naco de cultura.

Mas, o que gosto mesmo é ouvir a vida que passa.

Adoro sentar sozinha em um desses cafés e observar os tipos que vagam e divagam pelas ruas, apressados pra algum compromisso, preguiçosos a caminhar sem destino. E ouvir fragmentos da vida alheia. Como isso é bom! Pesco uma frase, uma confissão, rasgos de uma discussão… e depois construo histórias inteiras acerca desses pequenos parágrafos roubados.

Então, mania explicada, volto àquele dia da conversa sobre as delícias.

Apesar da pressa, não deixei passar a cena: um casal, na faixa dos 65 anos, almoço após bateria de exames e encontros com médicos. Câncer foi o diagnóstico. E pelo tom, poucos meses de vida. Nada de lágrimas. A atitude era de luta e coragem. Entre garfadas, as mãos se encontravam por cima da mesa. De frente um para o outro, os olhares transmitiam força. Depois do café, e quase na hora da minha volta à agência, percebi o marido fugir com o olhar, e dizer com a voz embargada: é, querida, se me fosse dado apenas um desejo nesta vida, seria trocar de lugar com você. Já na saída, escondendo as minhas lágrimas que insistiam em cair, ouvi a resposta: Sou egoísta, meu bem. Sem você não saberia viver.

Caminhei de volta para o trabalho, acreditando ainda mais na vida e no amor. Ganhei uma lição. Desta vez, não quis escrever a história completa. Nada do que poderia inventar seria digno daquele casal.

Dói, mas é bom…

[Começo a achar que tenho fixação por janelas]

A vida passa rápido, não? Lembro que rezava pra crescer… Queria ser adulta. Queria mandar no meu próprio nariz. Minha mãe respondia aos meus desejos com um “mocinha, quando a senhora for dona do seu próprio nariz…” E lá ia eu pro meu quarto rezar pra que o tempo passasse rápido e eu tomasse logo posse desse meu nariz. Arrebitado, seja dito! De tanto ouvir, empinei o tal que agora muitos me acham besta. Bicho! [denunciei a idade agora!] Eu queria e não podia. Tinha vontades e ficava a ver navios… sempre colocavam minhas conquistas pro dia em que eu viesse a ser dona de minha vida.

Aprendi que não era suficiente.
Aprendi, de tanto ouvir, que deixasse por conta de outros as decisões mais importantes. Não é de se estranhar…

E, depois de tanta mordomia, resgatar a responsabilidade, assumir que há tempos já sou a adulta que rezei ser – haja análise!!!
Porque dói, viu? É verdade! Dói bater no peito e dizer: é! eu fiz isso sim… é… se estou assim-ou-assado, é por culpa e mérito meu! Dói ficar exposta, vulnerável. Mas, devo ter um quê sado-masô. Ô dorzinha boa, viu? Taí: essa é a beleza de ser adulta. É se entregar de corpo e alma à vida. É cair, ralar os joelhoes, mas se levantar, pronta pra seguir. É achar, vez ou outra, que a felicidade está na ignorância – mas dar de ombros e ser feliz mesmo tendo um montão de informação pra administrar. É saber que, não importa o que aconteça: eu faço o meu caminho.

E então, dona do meu próprio nariz, agora rezo pro tempo dar um refresco, andar pianinho, pra eu aproveitar essa vida-boa que conquistei.

:: é, eu brinco de ser fotógrafa ::

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A ponte

Dois lugares separados: uma ponte a unir distâncias.
Majestosas e imperativas, pontes sempre são imagens românticas, não é mesmo?
A idéia de unir dois pontos separados, o desafio da construção, a superação dos limites e todas as metáforas que daí surgem rendem horas de filosofia, conversas inflamadas, devaneios e uma constatação: eu preciso de uma ponte!É sério! Preciso deste marco da arquitetura urbana para diminuir as distâncias entre mim e o que desejo. Tudo bem se terei que contruí-la com minhas mãos. Mas isso não vem ao caso. Agora só penso na ponte que não tenho…

:: outra foto minha ::

Janelas

Abertas ou fechadas, as janelas me causam um certo fascínio… Gosto olhar por janelas entre-abertas. Curiosidade típica de quem tudo-quer-saber, diz minha mãe.

Mais do que olhar, quero enxergar o que está além. Não alguém trocando roupa, vendo TV largado no sofá, ou fazendo sexo num sábado à tarde. O meu interesse é no como. É na digital que todos imprimimos no que fazemos. Gosto de observar personalidades em ação. Adoro ver o jogo de sedução e conquista em troca de carinho, sexo, dinheiro ou poder. Gosto de observar um ataque de raiva [não comigo, é claro!] – prova da imbecilidade humana. E me deixo comover com a gentileza que insiste-em-persistir.

E por trás dessas janelas, esquecemos que somos observados. Despimos capas de convenções e, nús, tocamos a nossa vida privada.
Agora entendo porque minha mãe [mais sábia do que eu imaginava!] dizia para eu observar como o meu homem, objeto de desejo, reagia às outras pessoas [e não a mim, como eu insistia em comentar]. Longe dos deveres sociais, somos mais selvagens, mais instintivos, mais nós mesmos.

Por trás das janelas cerradas, permitimos o indizível. Ultrapassamos limites questionáveis. Escondemos esqueletos no fundo dos armários… e validamos a afirmação que nem bom-dia daríamos aos vizinhos, se soubéssemos o que rola entre as quatro paredes da intimidade humana.

É por tudo isso que AMO janelas.

[As minhas, ultimamente, deixo abertas, escancaradas – nada a esconder; tudo a exibir]

p.s. eu também fotografo…

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Da minha janela

Dá pra pensar em alguma outra coisa?
Trabalho no que gosto, num lugar muito legal, com uma vista dessas…
E eu ainda fico pensando na vida.

Vai pra janela, vai!

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