Babel

Abro uma nova folha em branca no notebook
não sem antes preparar meu canto
luz, silêncio, incenso.

O caderno está aqui, ao meu lado, mas parece que não mais sei escrever como antes.
Preciso do teclado, e da sensação táctil de premir cada tecla.
Preciso do ecrã e da sua luz amarelada, para onde olho por longos minutos antes de saber como encadear meu pensamento. E mesmo assim, não o sei.

Ele. O meu pensamento.
Tão confuso e tão errático.

Como traduzir tudo o que sinto e penso em letrinhas nesta tela?
Será que a caneta e o papel tornariam essa tarefa mais simples?

Já fui capaz de brincar com a enxurrada de pensamentos desordenados. Hoje, não tenho certeza, esqueci como se escreve. Talvez porque os 50 me peçam mais consistência. É preciso deixar ir os arroubos juvenis e assumir uma cadência que não está em mim. Porque em mim pouco mudou. Sinto como sempre, apesar da aparência denunciar os anos que passaram. Por dentro, sou a mesma: assustada, sozinha, perdida. 

Mas não é só, nem tudo é pesar. 
Dentro de mim vivem muitas e nem por isso concordamos. 
Entretanto, aprendi a dialogar, a negociar, a conciliar.
Essas tantas, que em mim moram, convivem com suas próprias dores e alegrias. 
Uma verdadeira Babel. E talvez por isso eu me defina como efervescente: vivo em constante ebulição. 

Se de um lado tem dores, os dissabores não vão além. 
Há festa, há calma, há paz. 
Porque em mim nascem flores de todas as cores. 
E com os anos, confirmei que é preciso chover para renascer. 

Todo dia, hora, minuto. 
A cada respiro
pisco e morro; 
pisco e sou.

Photo by Daniil Kuželev on Unsplash

Sobre pontes e muros

Por causa de uma notícia compartilhada por uma querida amiga (a Rachel, do Terapia da Palavra), descobri Yo-Yo Ma, que diz viver entre fronteiras – físicas, culturais, musicais, e reforça que devemos construir pontes, não muros.

Yo-Yo Ma toca Bach na fronteira entre Laredo, Texas, e Nuevo Laredo, México, em 13 de abril de 2019

Longe de casa, de tudo o que me é familiar, ainda a construir o meu pedaço, me desconstruo todos os dias na tentativa de fazer pontes, de criar vínculos. Embora, em muitas horas, eu sinta um muro a me fechar.

Cruzar distâncias é cansativo – e nem falo das físicas. Dessas eu tiro o prazer de longas caminhadas. Refiro-me às distâncias entre pessoas…

Sobre a beleza

Eu sempre ouvi a frase “a beleza está nos olhos de quem a vê“, e nunca soube quem a proferiu pela primeira vez. Diz a internet que foi o filósofo e poeta espanhol Ramón de Campoamor y Campoosorio, no século XIX.

Hoje, ao ver algumas fotografias feitas debaixo d’água, e ficar emocionada com tanta poesia, me perguntei se todos veriam ali a beleza que me comovia.

Fotografia de Christy Lee Rogers. Mais em mymodernmet.com/muses-christy-lee-rogers

Aprendemos o belo como quem aprende a falar. Somos ensinados a apreciar isto ou aquilo. O teu gosto pessoal não é assim tão pessoal como gostarias de acreditar. É quando damo-nos conta de tal feito que libertamo-nos para além dos limites que nos são impostos. Livres.

Talvez isso não importe tanto quando falamos de fotografias, quadros ou músicas. Entretanto faz toda a diferença quando falamos de corpos, de pessoas, de humanos. Porque impõe-nos a fronteira entre sermos aceitos ou não. Marca a divisão entre pertence e não-pertence. Secciona o valor intrínseco de cada um de nós. Categoriza. Fere. E mata.

Going grey! Sim, assumi os fios grisalhos

Minha mãe dizia que aos 17 anos já tinha cabelos brancos. Eu, desde os 15, 16 anos, mudo a cor dos meus cabelos. E já os pintei de quase todos os tons. Já fui loira com mechas, ruiva de diversas tonalidades, castanho com e sem luzes, preto azulado. Gosto de mudar. É divertido. 
 
Em 2005, passei “máquina 2”, deixando o cabelo mais curto quanto possível, e ao natural. Amei o resultado e me curti grisalha. Mas a ideia era cortar para tirar a tinta preta e poder voltar ao vermelho… Porém, logo depois, me descobri grávida. Engordei 30 quilos e me sentia envelhecida. Naquela época, com tantas mudanças, não consegui “comprar” a briga de ser grisalha aos 35 anos. Tão logo parei de amamentar, tingi os cabelos.
 
Em 2014, fiquei platinada. O loiro mais claro possível, e com ele fui feliz por mais de um ano. Até cortar curtíssimo de novo, um pixie totalmente grey e charmosérrimo. De lá pra cá, deixei crescer, mudei o tom, voltei ao loiro e ao quase platinado. Até que em novembro de 2017, (des)colori os cabelos pela última vez.
 

Ver as raizes grisalhas traz um misto de sentimentos, nem sempre bons.

Selfie feita agorinha, dia 1º de maio de 2018, às 13h

Hoje, revendo o passado penso que, aos 34 anos, 54 quilos, vestindo os tão enaltecidos tamanhos 36/38, usar os cabelos curtérrimos e grisalhos foi uma deliciosa provocação. Afinal, eu era padrão, e recebia da sociedade a permissão de ousar.  Com 13 anos e 30 quilos a mais, bem… a história é um pouco diferente.

Veja bem, eu liguei o foda-se para o que pensam de mim. Mas ainda não desliguei o meu crítico interno. E dizer isso no masculino faz todo sentido: meu crítico interno é macho, cis, branco, classe média.  Ele me diz que não tenho mais idade para certas coisas, que deveria me vestir deste ou daquele jeito, que não deveria me comportar assim ou assado. Ele é um pé no saco!

Acredito que ele participava da Comissão Reguladora dos Padrões Socialmente Aceitos, e fez, com seus colegas, essas regrinhas (idiotas) que muitos seguem sem questionar. Agora, perdendo seu poder, vendo seu templo ruir, ele se apega com força ao que pode… e lá estão todos os meus ganchos, onde ele luta para se manter. Foda, né?

Eu acho lindo todos esses movimentos de mulheres maravilhosas que se cansaram da ditadura da beleza, da juventude, do corpo, do peso, etc, etc, etc. Aplaudo de pé! Há tempos entendi o significado da liberdade de expressão, parei de julgar e abracei as diferenças. (sim, eu já fui muito, muito idiota e preconceituosa, sem ter consciência disso). Se você pensa algo de mim, que bom, saiba que isso diz muito mais sobre você mesmo, e pouco – ou quase nada – sobre mim. Eu não estou nem aí e só aproveito o que me convém, afinal, só eu sei as dores e as delícias de ser quem sou. Por isso digo que não me preocupo com você, mas com o meu crítico interno, cada vez menor e mais sem voz, mas ainda assim, dentro de mim, a me julgar e apontar. Um dia ele morre ou muda, e viramos amigos confidentes, sei lá.

Tudo isso para reafirmar que tem dias que me olho no espelho e me acho linda e corajosa por ter quase um palmo de raiz grisalha gritando ao mundo a minha escolha. Noutros, quero usar um chapéu ou correr para o salão mais próximo (mentira! Sem minha Fernanda Pio, quase não sinto vontade de ir a um cabeleireiro).

p.s.: Estou pensando em aproveitar o verão europeu para pintar a parte loira do cabelo de azul clarinho…

Muda tudo, vai…

A sua vida está tranquila, mas nada favorável.
O que você faz?
MUDA!

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Essa semana, começo a encaixotar os pré-conceitos, os medos, os “e se…”.

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Ainda não sei o que fazer com eles porque, né, são tipo lixo tóxico! Se eu jogá-los em qualquer lixão, corro o risco de aumentar o surto de histeria coletiva que ronda por aí.

Guardá-los num depósito? Sei não… o custo é muito alto para pouco valor que eles têm. Diferente de roupa que, se não nos servem mais, doamos, esses itens não têm serventia a ninguém mais (nem deveriam ter!). Ainda tenho um certo receio de baixar a Pandora em mim: vai que abro a porra da caixa?

Acho que o ideal seria um ritual pagão, onde fosse possível queimá-los todos, me purificando com fogo… (embora tenha medo de defumar minha pequena casa!!!)

https://unsplash.com/christianallard
unsplash.com/christianallard

 

#Aguardemos

Até aonde você vai para se encontrar?

Vou repetir a pergunta: até aonde você vai para se encontrar? Mas se encontrar mesmo – de verdade – na essência? Conhecer seus limites, entender seus desejos e frustrações…

Acredito que eu estava anestesiada pela rotina. Você sabe, essa sequência de acordar, cuidar da casa, do filho, do trabalho, se divertir (quando dá!), dormir e acordar no dia seguinte para fazer tudo – quase – igual.

Os projetos estava indo para a gaveta. No início, eles se debatiam e se rebelavam, mas com o passar do tempo nem isso faziam. Era só aquele olhar de soslaio e tchum, mergulhavam de cabeça na gaveta.

Eu não estava feliz. Aliás, não estava feliz há anos. Foi aí que me descobri uma ótima atriz. Sim! Porque eu até me enganei direitinho por vários anos (vou ser mais precisa: foram uns 3 ou 4). Tá bom, não estava sempre infeliz. Até chegar 2014 e cair a ficha: eu estava com depressão. E quando a ficha caiu, o seu peso me levou pro fundo do poço. Hoje, vejo que a tal mola no fundo do poço assume várias formas – no meu caso foi trocar o tratamento tradicional da dupla psiquiatra+psicólogo e apostar em uma neurologista, a Dra. Maria Elisa, com apoio da psicóloga Ananda Salerno. Duas mulheres fundamentais na minha recuperação – serei sempre grata pelo suporte!

Foi eu sair de uma crise para cair em outra! Se, por um lado, a crise político-econômica está reduzindo minha atuação, está também ampliando meus horizontes. Mas o que isso tem a ver com se conhecer de verdade?

Acontece, meu caro, que se a doença me ensinou a buscar as respostas para os meus problemas em mim mesma, esta crise político-econômica reforça tal aprendizado. Foi preciso mergulhar em mim, conhecer meus oceanos e suas correntes, mapear sua vastidão, catalogar a vida que existe nos arrecifes, me descobrir afinal.

caravela
foto: unsplash

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“Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta” – Carl Jung

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Se eu continuar na metáfora, posso dizer que cem tanques de oxigênio não foram (ou são!) suficientes! Por muitas vezes me senti perdida, desorientada. E cada vez mais fascinada. Só agora sei que essa sensação de desconforto é peculiar do crescimento (seja ele físico, espiritual, intelectual..).

No crescimento do corpo do animal (a lagosta), a carapaça deixa de lhe servir (devido á rigidez do exoesqueleto) e começando a ficar “apertada”, o animal liberta-se da carapaça num curto espaço de tempo, sintetizando em seguida um novo exoesqueleto, o que equivale a dizer que durante esse período o corpo fica “mole” e desprotegido, ficando vulneráveis aos inimigos e predadores. – Por Rui Motta Freitas (6/99) Cadeira de Fisiologia Aquática.

Interpretei errado os sinais da vida e acreditei que precisava deixar para trás meu lado vulnerável, sendo só forte. É claro que deu um bug no sistema! A inteireza do ser é sua maior expressão, um tesouro de valor inestimável!

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Odes de Ricardo Reis

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis, 14-2-1933
Fernando Pessoa

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Eu não me lembro quando escrevi a frase: “posso ser quem eu quiser, e posso mudar de ideia”. Hoje, ela faz ainda mais sentido.