Choque de gerações

Quem ainda não disse (ou pensou!) “no meu tempo era melhor”, ainda vai chegar lá, eu garanto!

Isso porque temos a tendência de romantizar o passado, enfatizando as boas lembranças, ou amenizando as não tão boas (afinal, já passaram, não é mesmo?). Essa relativização faz com que o passado nos pareça bem melhor do que realmente foi.

Nossa memória é seletiva por natureza, isso porque se lembrássemos tudo o que já vivemos, ficaríamos doentes; do mesmo modo que ficamos quando não lembramos de nada. Diz a psicologia que a memória é a base da nossa identidade – com isso já dá para perceber um dos motivos que levam aos imbróglios entre as gerações, não?!

O que define cada geração e quais as suas características

A cronologia é embaralhada: cada autor define um par de anos. Entretanto, o conceito criado lá em 1928, pelo sociólogo húngaro-alemão Karl Mannheim, diz que fazem parte de uma geração não somente aqueles nascido no mesmo período do tempo cronológico, mas sim aqueles que têm a “potencialidade ou possibilidade de presenciar os mesmos acontecimentos, de vivenciar experiências semelhantes, mas, sobretudo, de processar esses acontecimentos ou experiências de forma semelhante”, nos explica a doutora em sociologia Wivian Weller.

Isso é o mesmo que dizer que, mais do que o ano do nascimento, é o contexto sócio-histórico que define as gerações.

Os Tradicionais – nascidos antes de 1945, na faixa acima dos 80 anos, representam cerca de 1,52% dos brasileiros (Homens: 0,59%; Mulheres: 0,93%) segundo o Censo 2010. Hoje, quase todos já estão fora do mercado de trabalho.

Estas pessoas cresceram em um período conturbado da história: a queda da Bolsa de Nova Yorque levou à grande depressão, que afetou a industria cafeeira brasileira. A segunda Guerra Mundial, entre 39 e 45. a Era Vagas e o começo do fortalecimento do trabalhador e dos direitos trabalhistas, com a criação da CLT, em 1943.

Baby Boomers – nascidos no pós-guerra, entre 1945 e 1960, têm hoje entre 56 e 76 anos. Muitos ainda estão no mercado de trabalho, já que a aposentadoria no Brasil hoje varia entre 60 anos para as mulheres, e 65 para os homens. Ainda precisamos levar em conta a longevidade e a melhora significativa da qualidade de vida, que deram um gás para essa turma: não é raro vê-lo cheios de energia e muitos planos para o futuro.

Os Boommer nasceram em um tempo de otimismo: a reconstrução dos países atingidos pela guerra trouxe uma renovação nos ânimos. No Brasil, viveram o milagre de Juscelino Kubitschek, e seus “50 anos em 5”. Nas artes, a Tropicália entra em cena.

As mudanças, para eles, eram eventos pontuais, e logo as coisas voltavam ao “normal”, à sensação de estabilidade.

Geração X – nascidos no período de 1961 e 1980, os X têm hoje entre 41 e 55 anos. contestadora por natureza, essa geração nasceu em meio aos movimentos estudantis, Guerra Fria e ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985. Embora ainda valorizem a disciplina e a estabilidade que seus pais tanto amavam, são mais competitivos e individualistas.

Os Xs viram a internet nascer (quando tudo isso aqui era mato!) e se dividiram entre o ceticismo e a avidez frente às muitas possibilidades que o mundo virtual prometia.

Geração Y – os Millennials não nasceram, propriamente, na viragem do século, e sim entre os anos de 1981 e 1995. Mas cresceram nesse admirável mundo novo, conectado, globalizado, muito mais dinâmico. É a última geração a conhecer o mundo sem internet.

Por todo o contexto de redemocratização brasileira, da instabilidade financeira à retomada da economia, os Y tendem a buscar seus próprios negócios – são empreendedores e procuram seu propósito de vida, com mais consciência ambiental do que as gerações anteriores.

Geração Z – os primeiros “nativos digitais”, nasceram entre 1995 e 2010, num mundo conectado e sem fio: taí o celular, que eles tanto gostam (mas não pra fazer chamadas telefónicas, né?). A GenZ não faz a divisão on/offline – já que estão conectados a todo momento. Vivem a era do Big-Data, são rápidos, ágeis e curiosos.

Seu contexto é o da prosperidade e ascensão. São jovens muito mais engajados em causas sócio-ambientais, indo além: têm no ativismo a amplificação de suas vozes.

Geração Alpha – nascidos a partir de 2010, são touch-screen! Recebem tantos estímulos, que têm tudo o que é necessário para lidar com as grandes transformações que ainda virão.

Big Picture: olhe para o contexto

Como disse Karl Mannheim, mais do que a cronologia, é (também) o contexto de vida que une as pessoas de um grupo. E isso serve para agrupar os indivíduos em suas gerações, como também vai dizer-lhe detalhes do seu consumidor. Nem todos os X, ou os Millennials, agem da mesma forma, ou buscam as mesmas coisas, embora o contexto de vida possa apontar para algumas direções.

Convivemos, e com isso, mesclamos nossos comportamentos com os dos outros – aprendemos coisas novas, ganhamos outros pontos de vista, apoiamos causas, mudamos, evoluímos, transgredimos. Não fomos estáticos como padrões escritos.

Ah, Bia, assim você complica: não existe um ponto em comum a todos de uma mesma geração?

Sim, e não. Porque somos flexíveis e até as identidades mudam conforme as necessidades, o contexto. Por exemplo: sou uma GenX cinquentona, às vezes, eu me apresento como mãe de um adolescente; noutras, como mestranda; algumas vezes, como migrante. Embora essas Bias sejam “camadas” de mim mesma, cada uma me faz escolher determinado produto ou serviço, e cada camada dessa é “fisgada” por um tipo diferente de comunicação. Entende?

As imagens vieram do Unsplash – usei o nome das gerações para buscar um “rosto”.

E você, o que pensa sobre isso?! Comente aí, vai...

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