Prima Berta

Naquela noite, o jantar seria na casa da prima solteirona e endinheirada, dona de quase metade da cidade. Berta se achava acima do bem e do mal: coisa que herdara de seu pai, junto com todos os apartamentos, lojas e galpões espalhados pelo centro da capital.

Ela não não tinha tempo para romances, repetia exaustivamente, como quem quer acreditar no que diz. Mas, desde garoto, eu atribuía sua solteirice aquele penteado de cacatua, e ria sozinho ao imaginar um primeiro encontro.

– Quase sete meia! A prima não tolera atrasos! – esbravejou mamãe, ainda com os olhos presos no velho relógio de pulso, zanzando pela casa a procurar a piteira de prata e ouro: “presente da prima”, justificava.

Eu, sentado na sala a esperar toda aquela movimentação pra sairmos, deixei que as recordações corressem soltas. Já não aparecia por ali há uns bons 15 anos. Como o tempo passa rápido, e não nos damos conta, divaguei. Se bem me lembro, a última vez foi no Natal de 2002, um pouco antes da minha viagem. Ganhei de presente de uma tia-avó um combinado de gola rolê e cachecol para me aquecer no inverno que enfrentaria em breve. Na época, eu os odiei! Agora, me recordo com carinho daquelas mal tricotadas peças. Por que ficamos tão nostálgicos na casa dos nossos pais? Até as coisas ruins me parecem divertidas, como na vez que quase perdi o dedão do pé, ao dar uma topada na borda da piscina. Ali mesmo, onde escorreguei no trampolim e dei a maior barrigada já registrada na casa dos Guimarães Boaventura. Sorrio ao me lembrar dessas tontices da minha adolescência.

A casa da prima Berta continuava como nas minhas lembranças: grande demais e entulhada de coisas que não conversavam entre si.

Os convidados aguardavam na sala de estar, bebericando e conjecturando o futuro da nação, todos ali se achavam políticos e milagreiros!, quando uma engomada copeira nos chamou para à mesa.

– Hum, lugares marcados! Típico da prima, que adora impressionar por seus requintes europeus, maldisse o mal-humorado marido da minha irmã.

Todos sentados e com os copos servidos, Berta bateu, levemente, com as costas da faca na taça de cristal, a pedir atenção:

– Queridos familiares e amigos, eu os chamei aqui por uma razão…

Antes que pudesse terminar sua frase, os sussurros começaram. A mesa, não muito grande se comparada ao ambiente, acolhia confortavelmente os 18 convidados e sua anfitriã, de repente pareceu pequena e incômoda. O que a prima teria a dizer? Por que juntara a todos nós, assim, num dia qualquer? Seria doença? Ela vai morrer???

Berta interrompeu os pensamentos e seus burburinhos para acabar com as especulações:

– Nosso jantar será o último, nesta casa. A penúria enfim me alcançou. Ao servir este frango assado e caçarola para a sobremesa, comunico a todos: o cascalho acabou!

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Este singelo conto é uma resposta ao desafio feito pela Maria Rachel, através da deliciosa Terapia da Palavra. Espero que gostem.

Imagem destacada: Freepik

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