CAPRICHO

Vivia em um mundo sem limites. Onde nada era suficiente. E o humano ansiava ser super.

Há tempos questionava a fronteira do bom-senso. Primeiro de maneira tímida, dentro da caixola, reservadamente entre seus neurônios. Mas aos poucos aquela idéia estapafúrdia, totalmente anárquica, tomava corpo, ganhava massa, voz, vida própria e escapava por onde podia: olhos, orelhas, nariz, boca, poros.

Seus gestos se tornaram reféns da tal idéia. Ela não mais respondia por sua linguagem corporal. Estava claro, ali, na cara estampado o pensamento rebelde.

O que fazer?

Dividida entre isto ou aquilo, conceitos díspares até, seguia aos tropeços, muitas vezes entre lágrimas. Ela não sabia como resgatar sua essência. À noite, escondida de tudo e de todos, ela confessava ao travesseiro sua insatisfação. Ela se vendera ao sistema. Mas sua alma era rebelde sim. Uma guerrilheira daquela causa quase perdida.

Durante os dias, maquinava escapar. Era preciso. Engodos vestidos de responsabilidades rondavam o caminho. E muitas vezes ela era fisgada. Até se encontrar com o espelho. Aquele não era o seu mundo.

Mas, então, onde seria?

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