Era uma vez, o engano

Ela se conhecia. Afinal, tantos anos de vida, de relacionamentos e de terapia a fizeram uma pessoa ciente e melhor. Estava centrada, conhecia suas fraquezas. E sabia compensá-las como ninguém.

Ela viu o rapaz na internet, pela primeira vez, numa janelinha on line de um site de relacionamentos. Sabe-se lá porque deixou passar. Mas o destino estava do seu lado. Ou ela assim pensou. Volta e meia desse mundão, lá estava o digníssimo, sorridente, contando a vida num blog qualquer. Conectado, o rapaz também estava no Orkut, Multiply, Hi5, Sônico, Facebook. Sempre um amigo em comum ligava os dois. Flechada, ela se apaixonou pela idéia que fez do homem perfeito. Foram anos brincando de gato e rato. Espiava, sorrateira, o perfil dele, e acompanhava de longe a vida que seguia. Até que se encheu de coragem e se mostrou, finalmente.

Escolheu seu melhor ângulo. Descreveu-se em palavras milimetricamente estudadas. Corrigiu vírgulas, refez parágrafos, calculou o impacto da missiva, e só então disparou o e-mail capaz de capturar a atenção de qualquer incauto. E ele fisgou a isca.

Entre o estranho e o encanto, quase não tinha espaço. Ele resolveu dar uma chance para os dois, e conhecer aquela que parecia ser seu futuro possível. Acreditou na história pronta que lhe era entregue embrulhada para presente, em rico papel e laço de cetim. Tudo era tão mágico, que fechou os olhos para o que realmente importava. O seu sentimento.

Ele tentou alcançar os anos de paixão que ela lhe devotara. Acelerou as coisas. Ignorou sinais. Avançou o quanto pode. Mas, reconhecendo faltar algo, depois de uma curva, pegou o desvio e saiu da estrada.

Ele a chamava de princesa. A sua princesa-encantada. Porque, no fundo, era tudo que mais queria. Ele, afinal, quis acreditar no conto de fadas.

Quando ele se despediu, quebrou o cristal, desfez o encantamento. Ela, a moça, não acreditava estar enganada. Reviu tudo o que fez para conquistar o coração do amado. Todas as diferenças aparecem – juntas – na mesma hora.

Ela negou o óbvio, focou apenas o que queria ver. E despejou todas as culpas no outro. De repente, todos os defeitos do rapaz saltaram a olhos vistos. Como pude?, se perguntou. E todas as feridas que o rapaz lhe causou abriram a sangrar. Percebeu então o quanto tinha sido infeliz, sofrida. Da sua torre, a moça optou pelo desprezo vazio. Era assim que superaria o desencanto.

O engano está nas entrelinhas, a espreitar. Minhas ações podem ser lidas a seu bel prazer. Mas, cuidado, gentil leitor. Eu o tratarei na mesma moeda.

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